caneta, papel e blog

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Qualquer assunto complexo, por mais complexo que seja, não é mais complexo que uma rosa

Mais do que um merda, um pescador

Eu não queria
que todos fossem como são
enquanto falo
que o que é bom
é o conforto de ser um puto
que curte um som


Eu tenho sonhos
em que jogamos fora
todas as moedas
(do mundo e do tchello)
no chão


Eu me proponho
A ser um merda
O que tem isso de subversão?
Deitar à sombra da árvore
juro, não é agressão



Eu me confronto
entre ser um nada
e entrar pra televisão
Na dúvida me deparo
com o mais divertido do mundo
Que é pescar e assar um cação

O quinto significado de latidude

E se vai
de maneira estranha
Sem lenço nem medida
procurando uma saída
se encontrar
mar e chuva e neblina
que horas são? na minha vida
Qual o tempo certo
de(o) momento existir?
Qual a tua longevidade?
E a razão da tua pergunta coibir?
E qual a tua idade?
Qual a tua terra-Planeta?
E os teus sonhos-Estrela?

Noite melindrosa

A janela, de uma maneira delicada, olha a mulher fechada. Imagina a brisa que poderia vir dela, da mulher.
A janela então segura seus trincos, firme porém carinhosamente, e arranca da mulher qualquer vestígio de estorvo

A janela abre a mulher e debruça nela que a noite já vem.
É bonita de se ver
A mulher aberta
Toda

Devagarzinho abre uma banda da mulher, o lado direito. Sente o vento, É norte ou sul? Não faz caso. O que convém agora é abrir a outra banda.


A janela abre a mulher e debruça nela que a noite já vem.
É bonita de se ver
A mulher aberta
Toda


Abre então o lado esquerdo da mulher, um lado que se faz prudente, sua banda mais pesada, travada, talvez empenada sol a sol. Sente um frio... ai, quanto frio sentiu a janela! Ela debruça... na mulher.


A janela abre a mulher e debruça nela que a noite já vem.
É bonita de se ver
A noite aberta
Toda
e melindrosa.



passarinho

E que passa pelos meu apuros
e que me contrai
me retrai
me sapeca
me liberta
e se vai

FEDOR

Enebria-se meu mundo quando sinto esse cheiro de nuca
porque tudo acelera n'alma
Uma coisa verde e desforme há ainda de Bum! peito a dentro
porozinhos de nada, atentos
pele que arepia ou não
joelhos que misturam-se então
e na janela um cheiro apodrecido de dor
embrulho no estômago
olhos vários sem brilho
e um gozo forçado, urgente
vidrinhos pendurados
quase todos
quadrados
e o fedor

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Quanto mais escrevo,
menos preciso dizer...
e me calo!

Bom dia!

A PARTIR DESSA ADIÇÃO QUE ME SUBTRAIO.
SUBTRAÇÃO DE IDÉIAS E IDEAIS. CONFUSÃO.
BLOQUEIO DO QUE NÃO SOU E ANDO TENTANDO SER DE FORMA EQUIVOCADA E SUPERFICIAL.
EXERCÍCIO DE COMO RETORNAR A SER OU DE COMO NÃO DEIXAR DE.
SENDO.
SENDO SEM IR.
SENDO E MANIFESTANDO-SE ASSIM.
PELO PRAZER DE SER...
E EXISTIR.

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No quando se fez Ser,
despiu-se a personagem
e calou!

VIDA

Eu te amo muito mais, agora que não te quero, do que quando te desejava meu.

Te amo por te entender livre e menos nosso

Te amo por te saber capaz de amar outras flores fora do pequeno jardim de nós dois

Te amo muito mais, agora que não te quero

Te amo muito, agora que não te quero mais

Te quero muito mais agora que não te quero meu

Te quero muito menos e por isso te amo tanto mais

E essa estranha sensação de amor e liberdade faz meu ventre vibrar de uma maneira diferente. Vida.

FELICIDADE

PODE SER QUE EU TENHA
 UMA CERTA BIPOLARIDADE
 QUE TORNA EXAGERADA
 A FELICIDADE.
EU SÓ SEI QUE ESTOU FELIZ.
 FELICIDADE
SOU FELIZ.
FELICIDADE
E NÃO QUERO PENSAR NO POLO DO LADO INVERSO
 ATÉ QUE PARE
A EMBRIAGUÊS DE ARTE

amorzade

Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias...


Fernando Pessoa




Ursulão, mulher de áries!
Fogo de abril!
Flôr de cor vermelho - quente
Respondendo às suas questões: Eu tô por aqui, eu tô por aqui. Eu tô bem, eu tô bem, bem, bem.
Você mandou duas mensagens, perguntas que se repetiam, reafirmavam-se. Duplas perguntas de dois. Exagero do carneiro, insistente que só ele.
Como uma boa e fiel ariana respondo muito e várias vezes: Eu tô bem, Eu tô bem. Sinto saudades de você. Sinto saudades de você, de você, de você, de você, Ursulão, mulé tesão



Amigo querido
Sinto saudades da sua voz cantando pra mim... cena difícil.
Triste melancolia
Difícil desapego
Sonhei com ela hoje, a peça, ela que era mulher, que morreu.
'Lita, enche a garrafa pra mim?'
'merda, gata, arrasa!'
Saudade da sua voz
Acho que a Yerma morria junto do João e do Lorca e do ígnea.
Essas coisas de fogo sempre se apagam, entusiasmo.
Eu quero ser água, nascer de novo, água, carne fria, morta.
Fica com Deus, Lita, meu nome.


Amiga mais fenix e brabona que eu tenho! ra-cio-na-li-ga-do-na!
Mulher que quebra o coco, o joelho... continua correndo.
Chega de colecionar bu-ra-co, porra! (Bate na madeira, cara de pau!!rs)
Saudade de tu, da parceria de vida, de trabalho. Que nada! tamu aííí´!!
Como que eu fico puta se tu te preocupa comigo, se eu me preocupo sempre contigo? (A-mi-za-de)
Fica bem que saco cheio pára em pé (vou pensar nisso. pro-me-to)
bj, carne lita quente

Obsessãããããooooooooo
Camille claudel (pura obsessão!!!!!!!!!!)
Vi de novo. Acabei de ver. Quero morrer, quero me rasgar inteira.
Salve Mona lazar. Amo-te e odeio-te
Material:
Nelson Rodrigues (conto Flor de obsessão)
Ovídio ( a arte de amar)
Camille claudel e sua louca paixão por August Rodim
"Durmo nua todas as noites na ilusão de que está a meu lado, mas quando acordo já não é mais a mesma coisa"

Quando você mandou aquela msg corri e me debrucei.
Mas a lua não aparece mais na minha janela àlguns dias
Então eu desci. Correndo. pelas escadas.
Olhei a lua e inevitavelmente fui abduzida por ela.


Será que ela voltou?
A grana não ficou
A lapa me chamou
A lua me roubou
Por que ela não ligou?
O joelho pifou?
O ônibus quebou?
Ela se apaixonou? nãããõooo rsrsrs
Te amo. A ti e aquele abraço de ontem

Menino de out doorS
Menino branco, du bem!
Quando penso em você sinto cheiro de bife de fígado!(isso é mentira)
Você é o lixo mais incomum da minha vida!
Tava lindo ontem de terno e com aquele mulerão do lado!
Você é o dono dos olhos caídos ou eles é que são seus donos?
E os seus cabelos? Eles têm vida própria?
Gosto de ti, querido, pela sua leveza.
Você é o dono da simplicidade e nem sabe.
Toca nela e faz um mundo!
Beijo carinhoso de quem divide palco, daí pra alma é um passo.

"Quando Nietzsche chorou", quando derramou todas as suas lágrimas aqui no meu apartamento...
Que momento! Só faz chover por aqui. Só agora engrenei na leitura, e que presente de empréstimo! Obrigado!
Uma deliciosidade de mistura! Psicanalise e filosofia. Digno de embriaguês.
Sinto frio nas palavras, tremo. Mas nada de agasalhos, faz calor aqui no Rio.
Vem me visitar e sinta de quebra!
Sim, é um convite. Saudade da amiga querida.
saudade do crepe tamanho família, da praia, da fumaça, da cachaça, do xote, do papo reto, da lapa, do que era e não haverá mais de ser, nostalgia e fim de papo.
você não é mais aquilo, e eu como mudei, quantas pauladas.


Era uma vez uma menina que tinha uma valeriana, quando a planta morreu, a menina tomou toda sua alma e virou flor

Amiga querida
Parceira de pelos e longos cabelos
Encontro poesia na sua casa.
Um amor na janela e a lua, uma gata enfaixada que mia na cama, uma dose ou duas de embriaguês.
Felizes encontros!
Você é um presente que Dionísio me deu.
Um brinde ao teatro!
Saravá!



Porra, pára! sai desse processo mal(criativo)dito.
Vamos fumar um cigarro, sei lá, tomar um ar, ver o por do sol...
Porque que as pessoas não entendem que amanhã a gente pode morrer atropelado por um fusca com a lanternagem amassada?
Sai daí dessa incógnita... me tira desse ponto de interrogação...
Quanto tempo a gente não se vê? Nunca mais eu consegui descer uma escada rolante na vida, e pior, nem subir.
Sabe quantas poelágrimasias eu já escrevi nesse tempo e você nem as leu... Foda-se também
Mas que inferno... e a raposa? Ela tava certa... ele sabia disso, por isso se tornou responsável por ela!
Sai daí... vinho... Nani... Lapa... essa semana... telefooone... minha caaasa


Ontem, pós aquele encontro que chovia e eu levava o sol pra me aquecer,
me ocorreu o quanto vc é querido. Li os monólogos que vc escreveu para Dri. O que mais me toca é saber que você escreve sem muito esforço, sem maiores exacerbações. Essa simplicidade me faz curiosa de ti!
Era na próxima que eu devia entrar. Só depois eu entendi pq peguei aquela.


Bruno Gabriel, eu passei só pra dizer que desiti de você!
Eu não te amo mais.
Tá tudo acabado entre nós.
O ursinho de pelúcia que você me deu criou asas e voou pela janela do setimo andar!
Favor jogar fora as cuequinhas que bordei meu nome.
Ah! Você sempre quis saber se era corno... sim, eu te traí com o Gê(raldão).
Por favor não me procura mais.
E aquela sua foto... encruzilhada na certa!





AMOR, Lita



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mensagens vão chegando na plenitude da aura, quando se liberta e deixa fluir
pensamentos que se vão como fu-maçã deixando de existir
processo
pensamento
caracterírticas do voar
e ser


pensamento de vida de lar
salvo de si
em busca de mim
por ti
assim por pensar e ser
diante de ti assim como pensamento de lar
em frente
parado
amém

Razoável

Não, o nada não é necessariamente a ausência do tudo. Enquanto tento me convencer disso, penso na quantidade razoável de xampu antes, durante e depois do banho: alguma coisa (haverá de existir) entre usar todo o frasco e desistir de lavar a cabeça.

eco

Não, uma casa com cachoeira e pôr do sol não te salva do eco. Uma noite de trepada e retrepada também não.
Condenada ao vazio e batizada pela moral, bem vinda, criança, ao mundo

balança

Nessa desmedida entre o sagrado e o profano, acendo um cigarro e deixo que a balança tenda para o lado verdadeiro de mim.

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Se não procurasse tanto por mim,
 quem sabe não me encontraria por aí, perdida em alguma esquina fumando um cigarro pensando essas coisas que penso, sentindo essas coisas que sinto e me questionando a respeito de mim no mundo como sempre faço...
Quem sabe assim, me encontraria.

Rio, novembro de 2009

Hola!


Quanto tempo, não é? É ou não é? Já nem sei mais, tanto tempo faz que parece que nunca nos falamos, que nem mesmo nos conhecemos. Engraçado isso, não?
Bem, respondendo sua última carta-e-mail... Desculpa a demora, a Bruninha esteve doente e eu não parei pra respirar entre exames e pediatras e remédios e horários nas madrugadas... estou bem, na medida do meu possível... que é bem diferente do seu, eu sei.
Bem! Estou bem. Mais terráquia impossível, mas bem. Não dá pra transcender, baby. Com crianças não há transcendência. Aquelas nossas idéias... ihhh ficou no passado. Ainda não dá pra largar a capital, o capital e muito menos o capeta. Sinto um cheiro de queimado. Nossa mãe, que medo que dá! Já olhei o fogão, nada.
O Ruanzito tem matado as baratas que aparecem pelo meu caminho. Quem diria... meu filho já é um ser pensante, um cidadão do mundo e até mata as minhas baratas. Às vezes parece que ele é meu pai... ai aquele papo de novo, a busca do elo perdido, do pai subtraído. Quanta psicologia barata! Quanta barata! Meu filho é meu filho e pronto. Lindo que só ele, mas ainda tem aquelas ideias de ser astronauta. Será que os homens não amadurecem nunca? Parece que estou ouvindo sua gargalhada escrachada, dizendo 'não sei, não sou mais homem há muito tempo, cresci baby hahahah' ou então 'porra caraio compra uma astronave pro menino e não torra as necessidades alheias hhahaha' Sinto sua falta e com isso sinto falta de mim também. Eu não sou mais eu, baby, eu sou mãe. 
A Bruninha está recuperada, andou resfriada pois fomos à praia 3 dias seguidos no último fim de semana. Ela decidiu que quer ser surfista, baby! Que ironia! Não sei se o problema está no nome que você escolheu ou na genética que eu emprestei.        Por falar nisso, juro que depois que eu tirei a cor vermelha dos meu cabelos nunca mais saí com nenhum cara, não por dinheiro. As coisas estão melhores, consegui comprar uns filmes bem antigos de um cinéfilo de São Paulo que faliu e fechou as portas. Foi uma viagem gostosa, choveu, mas chuva gostosa. Fui sozinha... ai como foi bom ficar sozinha!!! Bem, com isso dei um gás retrô na locadora e o público mudou também, claro, né... pessoas interessantes, baby. Você tinha de estar aqui... Tinha nada! Você está aí e isso não é motivo de se lamentar, nem de se mudar. Só de se delirar.
Delírio mesmo, te saber aí, tão longe de mim, tão cachoeira. Você que era tão NovaYork, tão undergraund, tão admirador de cheiradas e cafungadas... agora aí, tão assim verde, levantando a consciência em fumaça, plantando a vida, semeando amor livre e morangos. 
Quanta falta você faz, baby! E o Cristóvão? E vocês? Ainda me lembro a impressão estranha que tive dele quando a primeira pergunta que ele me fez era se eu costumava..., bem aquela coisa que você sabe. Eu juro que rezei uma ave maria inteirinha depois de responder que sim, sim, sim, aí então ele ficou mais aliviado. Olhar maduro ele tem, né baby, visão além do alcance, já volta quando ainda nem acordamos quanto menos quando pensamos em ir. Você merece puxar essa corda pra você.
É loucura pedir uma visita, eu sei. Eu vou, baby, eu vou. A Bruninha não fala em outra coisa, quer voltar ai, menina natureza essa minha filha. Tão linda, baby, tão linda. A minha versão tão mais leve e sem culpas, tão menos prática, menos encanada e dona daquela sobrancelha pretinha tão expressiva e persuasiva. Já falei para ela parar com essa mania de hipnotizar as pessoas. Essa menina é meu amuleto. E vai ser uma grande mulher.
E eu? Eu te prometi, baby, que seria mulher! E eu sou... porque quando, aos treze anos, escorreu sangue pela primeira vez pernas abaixo eu decidi que seria mulher de verdade. Mulher completa do começo ao fim, de a a z. Que seria vulgar quando tivesse de ser, sensual, feminina. Que, se fosse para sofrer, sofreria como mulher, com graça e feminilidade. Dor com cheiro de flor. Decidi que seria amada, amante, mãe, louca, crente, medrosa, careta e que usaria brincos, saias e coragem. A partir daí eu abria minhas janelas e pernas em noite de lua cheia e me masturbava sem pressa, mas com o tesão de animal no cio das lobas e com um carinho por mim mesma que eu, naquela idade, nem sabia explicar. Ser mulher é meu mal, meu pesadelo dos piores, o maior presente de Deus e de mim pra mim, e que agora eu tenho e é meu, é ser eu, é mulher ser. Eu nasci pra ser mulher, baby, mas tive raiva de mim às vezes, por não ser homem. Coisa assim que não se explica. E agora eu sei... quando me fiz mãe e o mundo me adotou como tal, fechou-se um ciclo para que outro se iniciasse. Ah baby... eu sou tão feliz ... e estou agora tão plena com o meu mundo... Sempre na corda bamba das relações, sempre me expondo e chegando à beira do precipício. Sem mistério, sem roupa, revelando em palavras e ações fraquezas e deslizes. Enquanto você aí, no seu mistério de pavão. Impecável, escondendo a sete chaves o Kiko e a Chiquinha. É quando eu me calo frente àquela sua pergunta, e um tchau pra depois olá. 
                                                                                                       
Um baby,
Beijo!  


Um beijo baby. 

Atrasada, mais uma vez

Saio sempre tão antes que, mesmo que eu me atrase, sempre chego no maldito horário de mim pra mim. É sempre assim.
Embriaguês de arte. A ponto de quase não se dar conta e aí então nada se faz, ou tudo que é tanto e, por ser tanto, é quase nada mais.
Ouço essa música e não quero mais parar ou esperar. Sinto que estou atrasada de mim.
Qual parte ficou pra trás, me pergunto.
E a cor do abacate me soa tão inspiradora, que só me pergunto porque. Por que?
 Quase já não te quero mais enquanto que acordo sempre com sede da tua água e clamo que me sacie com esse suor amargo de arte manchada.
Ah! Esse tapete felpudo que só uso no inverno... não te troco jamais pela areia dessa tua praia magnética de ondas interrompidas de si próprio, mesmo que seja assim tão meu, tempo, e não saibas.
Atrasada, mais uma vez!
Espero que essa caneta não chame atenção. É mais um documento-denúncia de mim mesma por essas bandas estranhas por onde me meto na hora exata beirando ao pontual.

Escrever

Escrever me parece cada vez mais honesto (1. Casto; pudico.2. Virtuoso; recatado.3. Probo, honrado.4. Conveniente; próprio.5. Razoável, justo.), com o quê, eu não sei. Honesto e pronto. Quanto mais eu escrevo, menos preciso dizer e me calo.
Me agrada ceder tempo (1. Série ininterrupta e eterna de instantes.2. Medida arbitrária da duração das coisas.3. Época determinada.4. Prazo, demora.5. Estação, quadra própria.6. Época (relativamente a certas circunstâncias da vida, ao estado das coisas, aos costumes, às opiniões).7. Estado da atmosfera.8. Por ext. Temporal, tormenta.9. Duração do serviço militar, judicial, docente, etc.10. A época determinada em que se realizou um facto ou existiu uma personagem.11. Vagar, ocasião, oportunidade.12. Gram. Inflexões do verbo que designam com relação à actualidade!atualidade, a época da acção!ação ou do estado.13. Mús. Cada uma das divisões do compasso.14. Poét. Diferentes divisões do verso segundo as sílabas e os acentos tónicos.15. Esgr. Instante preciso do movimento em que se deve efectuar!efetuar uma das suas partes.16. Geol. Época correspondente à formação de uma determinada camada da crusta terrestre.17. Mecân. Quantidade do movimento de um corpo ou sistema de corpos medida pelo movimento de outro corpo.) nessa intimidade (1. Qualidade do que é íntimo, essencial.2. Relações íntimas.) entre mim e o papel, ou qualquer coisa parecida, um pouco mais tecnológica (1. Que pertence às artes em geral.2. Relativo à tecnologia.).Tecnológica. Gosto dessa palavra, se eu tivesse um robô, assim se chamaria, Tecnológica. Penso nas palavras. Renomeio as velhas. Gosto das velhas com novos nomes. Dona Carolina, aos 100 anos, Carolina. Quando era jovem (1. Que ou quem tem pouca idade; qua ainda não é adulto.2. Que ou quem está na juventude. = moço 4. Que existe há pouco tempo. = novo, recente) devia ser a rainha dos nomes difíceis de se guardar.
Por falar em guardar, ando com dificuldade de guardar coisas. A mim também. Não guardo objetos. Não guardo lembranças (1. Acto!Ato mental pelo qual a memória reproduz um facto passado.2. Recordação.3. Apontamento (para auxiliar a memória).4. Alvitre, ideia.5. Presente, dádiva.). Não me guardo. Ando esquecendo o que é bom de se esquecer e o que nem tanto. Não lembro de nenhum exemplo (1. Frase ou palavra citada para apoiar uma definição, uma regra.2. Aquilo que pode ou deve ser imitado.3. Modelo; lição.4. Anexim; rifão.5. Zool. Espécie de crustáceo) agora para citar.
Por isso me dedico a escrever, para não esquecer. Ou para esquecer de  vez e não lembrar mais.

POESIA

TUDO É POESIA
SEM TIRAR NEM POR
QUANTAS PERNAS TORNEADAS EM MEU CAMINHO
JÁ NÃO TENHO MEDO
SOU ALGUÉM QUE FICARÁ

passarinho

Não pára, coração
Não cessa tua alma
Arregala teus olhos na vida
Busca beleza no amar
Encontra força nas águas
Não pára, coração
Perca tua verdade não
Segue,
errante que seja
Toca aquela música eterna
Não desbota, coração
Bebe desse mar.
Escorre
Canta aquela última nota
Mas não pára, coração
Vive e reproduz canção
Não pára, coração
Anjos te precisam flechar
Faça-os vivos, coração
Não pára
Vive enquanto passarinho for
Vive e voa em descompasso
Não pára, coração
Seja assim explosão
Arrebenta amarras desse peito
Encharca, coração
Embrenha noite a fora
Em busca de sinal
Voa coração
Seja eterno no começo
Seja eterno no final

então espero

Ai maldita dor
Desnudo essas mãos
pretas e lilás
enquanto me desnudo
e me revelo
me arrisco, me arisco
me há risco
em abismo e colchão
enquanto me vario
desvario
desanuvio sua visão
profunda exposição
anatomia da alma
quente ou escuro de mim
em segredo
ai maldita dor de inspiração
subversão
rima idiota
cérebro enraizado
desamarra suas amarras
e me toma sem calcinha
corrimento de alma
escorrimento
amarelo impuro
felizes são aqueles
que podem escorrer
rio a fora
pode ser que pare
então espero
maldita dor

também que há de ser

Se eu pudesse, por um instante ou vários deles, abrir os olhos da alma e te enxergar, como realmente te apresentas no infinito, quem sabe assim eu saberia se minha alma é do teu espírito livre, se tua alma é minha liberdade... aí então eu tocaria a campainha do teu peito e te diria sobre a dó que eu tenho de nós, aqui nesse plano cheio de mágoas e colores, aqui nessa nossa babilouca que me deixa lônia.
Mas quando fecho os olhos, não te reconheço em espírito nem em vaga lembraça, não me lembro de mim ... É coisa nova, quiçá? Não sei dizer ainda, mas quando essa carne pensa na tua, quando meus sonhos procuram os teus, quando meu olfato lembra e se embreaga do teu caminhar, aí eu já não sei mais o que é certo e desisto de comer só alface.
Mas quando fecho os olhos, quando minha adrenalina te reconhece a matéria, aí eu já não sei mais o que é certo e desisto.
Mas quando eu fecho os olhos e minha boca tem sede da tua e se misturam dor carnal ao pedido de paz mundial, por um coletivo, pelo nosso transformar... aí eu já não sei e desisto.
Qual o objetivo do encontro de artistas senão pela transformação do mal em menos mal? Então qual o objetivo desse caminhar? Alimento do corpo? Ai, eu já não quero mais pensar...
Não há mais saída. Se não há evolução não há alma. Morre-me, morre-nos aquele meu desejo de largar tudo pra pegar. Largar tudo e mais um pouco por um quintal com córrego, uma horta e um movimento artístico. Longe! e perto da natureza.
Vamos fugir desse lugar, baby, tô cansado de esperar que você me careggae pr'onde eu possa plantar, meus amigos, meus discos e livros e nada mais, ouvindo mar de Itapoã, falar de amor... Quando eu te mostrar o céu que eu vi e pude acreditar no azul redondo da Terra, vais entender e acreditar também que há de ser, e será felicidade.

9 horas e meia

Quanta poesia se perde em 9 horas e meia?
Quanto sol!
Mas,
em meio à fome nasce um poeta negro ou amarelo
que morre antes da primeira palavra.
Quanta vida se perde em meio à fome.
Quanta!
Perdoai-me Senhor o meu egoísmo
Perdoai-me Senhor as minhas ofensas

suposta limpeza ou pera passageira

Eu achava que o medo que eu tinha era da criança, do seu fedor. Achava eu que sua sujeira sujaria minha suposta limpeza. Eu achava que sua fome comeria minha pêra passageira. Quanta ingenuidade a minha que achava que meu medo era do que eu via. O medo que eu tinha era da minha consciência. Ela que denunciava que eu nada fazia.

solidão

Por mais que eu fique em casa,
me alegro em saber que lá em baixo,
o coro que come, bebe e se embreaga,
jamais me rejeita.
Ele me abraça quando desço.
Então eu subo
aliviada.

Maria da lobas, das Anas Paulas

Chegara aos 40 anos e percebera o que sempre temeu, com um único consolo. O consolo de que aquela degradação era externa e viera aos poucos, concomitante à construção dos degraus que elevavam a parte de dentro do armário embutido de si mesma. Levava consigo o corpo, essa coisa que dá e passa, essa capa momentânea de chuva passageira, esse uniforme, esses braços, essas ações. Olhava as próprias mãos e já reconhecia toda uma vida em forma de marcas, olhava as próprias mãos e já reconhecia o próprio rosto.


Chegara aos 40 certa de que, se aos 30 prosseguisse valorizando tanto o espelho quanto aos 20 anos, chegaria aos 50 em profunda desesperança. Tomou pra si uma força que ainda restava, como que duplicando-a ou quase e apagou a vela. Pronto, está feito. Fechou os olhos não por um pedido ao universo, mas pelo filme, o filme único e exclusivo do seu universo, que passava na mente. Lembrou-se do dia em que deixou de levar a vida tão a sério e passou a viver uma aventura, a sua. Foi quando chegou no topo do trapézio, na ponta direita, e pôde percorrer em linha reta a sua lucidez inexata partindo lá de cima do ângulo de um pouco mais de 90.


Chegara aos 40. Chegara ao início da segunda parte da linha reta com uns desequilíbrios e algumas quedas. No início da segunda parte da linha reta, chegara aos 40.


'Não vivo como a maioria', pensava. O ser humano, publicitário de si mesmo, capitaliza-se desde a hora em que nasce até quando, em caráter final, se deita em sua cama de madeira muito ou pouco confortável dependendo da quantia de dinheiro que conseguiu arrendar durante a vida. 'Mas fiz os meus negócio$, vendi caras e bocas', sorria e pensava.


Chegara aos 40. Chegara ao início da segunda parte da linha reta.

ARITAS

video

A PALAVRA É RECONSTRUÇÃO











PALAVRA É RECONSTRUÇÃO



(Texto retirado do site http://www.racarubronegra.com.br/ e livremente adaptado pela poeta)

Está na hora do BRASIL embalar no Campeonato Brasileiro. Chegou o momento dOS BRASILEIROS voltarEM a ser o referencial NA LUTA PELOS SEUS DIREITOS. Para isso acontecer, é preciso que VOCÊ esteja presente e faça parte dessa caminhada. Juntos, somos mais fortes e podemos levar o nosso PAÍS ao lugar onde ele merece estar.


Já se passaram 3 DÉCADAS desde a última conquista POR UM IDEAL QUE REALMENTE ATENDESSE UMA NECESSIDADE DO POVO, SEM MANIPULAÇÃO DE MÍDIA . Todo o ano nós depositamos a confiança no BRASIL, mas, infelizmente, não conseguimos alcançar o nosso objetivo. Porém, somos UMA DAS MaiorES e MAIS RICAS CULTURAS DO MUNDO e sabemos que podemos fazer a diferença. Juntos, podemos gritar numa só voz para que o nosso PAÍS saiba que há uma nação acreditando em cada um que veste UMA CAMISA VERDE E AMARELA. Todos nós somos responsáveis por ajudar o BRASIL a se reerguer NA LUTA ANTI - CULTURA - DE - CORRUPÇÃO, mas para isso, precisamos nos fortalecer para representar bem as cores dA NOSSA REVOLUÇÃO.


Por issO QUE NÓS, CIDADÃOS CONSCIENTES, ARTISTAS, PENSADORES OU INDIGNADOS, estAMOS voltando com tudo e precisaMOS que você faça parte desta guinada. Somos o ponto de referência para todos os BRASILEIROS, sejam simpatizantes ou turistas que querem sentir a energia de ACREDITAR NO BRASIL. Todos sabem da magia que a nossa torcida tem e como somos fundamentais para representar cada BRASILEIRO junto ao clube. Somos a voz de cada integrante e estamos aqui para incentivar, cobrar e fazer tudo pelo melhor do PAÍS.


Mas, para mantermos a nossa festa/REVOLUÇÃO, inovarmos em nossas comemorações e representarmos O nossO PAÍS pelos quatro cantos do MUNDO, precisamos que todos vocês contribuam para que o nosso espetáculo seja cada vez melhor. Temos que ter a consciência de que cada um de nós é uma peça importante nesta engrenagem e, que unidos, conseguiremos fazer muito mais.


Para isso, você precisa COBRAR e estar em dia com O QUE ACONTECE DE ERRADO POR AÍ. Cada integrante deve fazer a sua parte e cobrar da nossa diretoria o verdadeiro papel dE UM POLÍTICO. Você, BRASILEIRO, precisa compreender que a nossa torcida está acima de qualquer ORGANIZAÇÃO DE GOVERNO OU DE UM SISTEMA PRÉ ESTABELECIDO e, por isso, precisa manter a sua DIGNIidade em dia para que tenhamos novos RUMOS que Elevem o nome dO PAÍS. A sua parte, somada a dos demais, ajuda na manutenção DE CORRUPTOS NA CADEIA, NA MELHORIA DO ENSINO PÚBLICO, NA VALORIZAÇÃO DA MULHER NO MERCADO DE TRABALHO, NA LUTA POR UMA MÍDIA MENOS TENDENCIOSA, NA bandeira POR UMA CULTURA MAIS AMOR E MENOS DINHEIRO, NA LUTA CONTRA O 'TIRAR VANTAGEM', NA BATALHA POR UMA COBRANÇA DE IMPOSTOS E TAXAS DE TELEFONIA MAIS HONESTAS, NA LUTA POR UMA URGENTE DISTRIBUIÇÃO DA RENDA, E MAIS UM MONTE DE COISAS E faixas e adereços que são vistos em toda extensão da arquibancada DESSE PICADEIRO e por todo o Brasil.


Quem é Raça BRASILEIRA de verdade sabe que é preciso colocar a vaidade de lado e torcer com moral e vibração. Não existe fronteira, região ou subgrupos dentro da nossa torcida. Somos uma massa vermelha que carrega o amor ao BRASIL no peito e mantém o punho cerrado na luta pelo melhor do nosso clube. Não é a toa que, nestes 500 anos de existência, todos sabem quem somos e tudo o que podemos fazer. Cada um de nós é responsável pelo Maior Movimento de Torcidas do Brasil e, para isso, temos que manter a nossa Raça, cuidar da nossa torcida e fazer com que ela cresça ainda mais, representando a cada um de nós com lisura, transparência e muita disposição. Vamos fazer valer a nossa ideologia.


O momento agora é de reconstrução. Associe-se. Uniformize-se. Orgulhe-se.

Vem aí o Maior Movimento de Torcidas do Brasil.





BR101

Nenhuma núvem no céu
Sou de todo azul infinito
Não há flores
e palavras
Gosto de você

Nenhuma núvem no céu. Nada
De todo azul infinito sou eu
cabelos que se embalam junto ao vento
de uma manhã insistente
bela. Não há flores

Méus pés são verdes e correm
em busca do paraíso ou d'uma carona no caminhão dele

Beleza que não se esgota
caráter infinito aos olhos
Gosto de você, menina

Sem começo nem fim
Sem chão ou teto
sem dimensão
sem maldade aparente
sem parte de baixo, ou de dentro

Nenhuma nuvem no céu
que se possa tomar como defeito

Nenhuma flor, nada
que se possa considerar o batom da moça que já é bela

Sim, gosto de você
A partir daí, não sei mais quem sou
além de todo azul infinito

Não sei mas quem sou
além de mim, não sou mais ninguém

Não ser nada é tornar-se tudo somente para si.


A dor de não ser grande em nada, te faz pequeno. Sendo pequeno, torna-te um grande nada. Ser um grande nada é não ser grande em nada. Não ser grande em nada é ser pequeno em tudo. Ser pequeno em tudo é não ter voz.

Não ter voz é ser estrela apagada, é baixar a cabeça. Não ter voz é se conformar, é quando se é o pó do grão ou o grão do pó, sei lá, tanto faz quando se é nada. É deixar a panela queimar de propósito por preguiça de desligar o fogo do mundo, a tua morada.

Quando se é nada, nada se quer, ou se aspira. Nada. Ou apenas um desconto de 10% numa bolsa da Victor Hugo.


Essa coisa de não ser grande em nada, te põe no lugar da observação, da impotência, da espera na janela enquanto a banda passa, até porque não ser nada não te torna cego e não ser grande não te faz frio. Ótimo: quando não se é nada, pode-se ao menos ser um observador, grande ou pequeno. É o que se espera, a observação crítica e uma poesiazinha, para se dormir tranquilo pelo menos por uma noite.


A hora é essa, acender um cigarro e observar, fez-se o nada. Passa-se então a tudo olhar. Vê-se crianças choramingando a fome, vê-se o velho, vê-se o desespero mudando suas cores na vida, vê-se a paz, vê-se o inferno, vê-se a pressa... Sente-se a navalhada e nada se faz... pela conservação, claro, da cadeira de 'o grande nada', pela inércia, pela apatia. Nada, não há tatuís nas praias. Nada. Conformismo e mutilação do teu clitóris em nome de um Deus.


Quem sabe mais poesia? Uma por dia? _ Ninguém te lê, grande nada. Arte fraca, sem bandeiras ou facadas. O fedor dos corações não se limpa assim fácil com poesia e sabão. Quem sabe a presidência do planeta? _ Como? Em qualquer cadeira que sentares, nada, serás sempre um impotente. O im-potente é um pedaço do todo, sem poder nem potência, um ponto na platéia. Tuas lágrimas ou vaias não existem, são só pra ti. Nada se faz em prol do todo. Nada


O grande nada se confunde, prefere não pensar como pode a bomba atômica brotar da mesma terra que brota a flor. Quanto absurdo! Quanta dor! O nada sente fome e a sua fruta está envenenada com resíduos de um futuro câncer. Mas isso é normal. Quem é pequeno não questiona. Sente fome e come; não pensa. Quem é pequeno envenena, agrotoxíca, apunhala e trai.


A dor de não ser grande em nada te faz um observador, pequeno, mas observador e, de súbito, vê-se um pêlo rebelde na sobrancelha esquerda ou, pior, uma sujeirinha no umbigo.


Quando se é pequeno, ninguém te lê, ninguém te aplaude. Quando se é pequeno, tudo se torna grande e os odores te entopem a garganta, misturam-se o cheiro do rico e o cheiro do pobre, o cheiro da dor e do torpor. Tudo é grande, meu Deus. Tudo é grande, meu Pai.

O nada nada é. Mãe, nem grande, nem pequena. Artista, nem pintora, nem atriz, nem poeta. O nada está vazio, tua tinta não tem tela, tua voz é engasgada, teu caráter é duvidoso e tua árvore não dá frutos.

Quando se é um grande nada, torna-te o grande todo, a massa, a grande maioria, o real sentido da vida entre a superfície da terra e o céu. Não ser nada é tornar-se tudo somente para si.

demolição


hum... pedacinho do céu antes do sol,

logo depois da lua

demoli meu prédio por ti.

demolição
sabor de não se conhecer mais

som na certa medida aos ouvidos. grunidos

hum... onde eu estava?

Pedacinho de perfeição
cílios trançados de visão embaçada, meio sorriso
eu, como parte do teu paraíso, cárcere em ti

presa de mim,
pensamentos

A sobra do amor

Foi na ação de descascar uma laranja, em meio a círculos cítricos carregados de sensualidade; foi na ação cortante de desnudar uma laranja, que pensou no amor abortado, não uma, nem duas, mas várias vezes e pôde ver, perceber, sentir... o toque de sua alma que paira no ar.
'Amor tem alma?'Perguntou. 'O amor é toda alma' Respondeu.
E agora, perante essa constatação, o que fazer com a alma de um amor abortado pairando no ar, pesado como um ponto-vírgula, insolente como um sinal vermelho e interrompido como a morte?
O que fazer quando o amor não se esgotou e sobra ainda em alma arrastada cobrando vida até a última gota?
'Alma de amor não é coisa com a qual se brinque'. Pensou, enquanto chupava a tampinha da laranja, aquela parte de cima que a gente corta, fere e chupa tentando evitar que o líquido ácido te escorra da boca até o queixo e isso te faz rir.
Alma de amor assusta mesmo, te ameaça. Ela causa um certo desespero perante a impotência do 'nada há a se fazer'. Essa impotência é uma necrose. Ela vem quando não há chance de ressucitação do amor e qualquer respiração boca a boca tende a assassiná-lo de vez.
Amor morto de morte matada é assim mesmo. Morre magoado, sem saber porque morreu. É criança ainda, morre anjo e vai pros braços do diabo, deixando uma saudade desgastada e uma ânsia de correr pra trás, bem pra trás.
Chupou todo o bagaço, com uma fome da qual não sacia e decidiu seguir em frente, ignorando qualquer alma que rondasse. Resolveu chupar outra laranja, dessa vez uma menos ácida porque os amores, espera, podem sempre ser doces.

ÚTERO

Personagens:
O homem
O psicólogo

CENA I

O homem - Não procurei o senhor antes porque acho que não pode ajudar-me. Em todo caso, o faço agora, já que não posso furtar-me de mais essa tentativa.
O psicólogo - Acha que não posso ajudá-lo?
 Gostaria de ir direto ao motivo que me traz aqui: quero retornar ao útero quente e acolhedor de minha mãe.
 Precisamos descobrir juntos porque o senhor deseja tanto esse retorno.
 Não quero descobrir! Preciso partir, e logo! Pode ajudar-me?
 Senhor...
 Pode ou não pode ajudar-me na viagem?
 Creio que não, mas...
 Então preciso ir. Desculpe-me, mas não devo e nem posso continuar essa conversa com o senhor. Sou um homem obstinado.
 Permita-me uma última pergunta.
 Por favor...
 A sua digníssima mãe encontra-se ainda entre nós?
 Não. Morreu na ocasião do meu parto.
 Hum...
 E então?
 Nada... O Senhor não estava de saída? (Pausa muito longa) Pode sentar, se quiser.
 No seu colo?
 Por favor... (o homem senta) Pode chorar se quiser.
 (levantando bruscamente) O senhor não vai zombar de mim!
 Essa não é minha intenção, quero apenas que faça o que tem vontade (Pausa. O homem beija o psicólogo. Pausa) Em que momento começou a desejar isso?
 No momento em que nasci.
 Não nos conhecíamos na ocasião.
 Eu já premeditava.
 Que nos conheceríamos?
 Não. Que o senhor não poderia ajudar-me.
 Não posso suprir sua carência, porém...
 Basta! Preciso seguir viagem.
 Nos veremos novamente?
 Por que não?
 Pela viagem.
 Sabe que ela não acontecerá.
 Sim sei. Imaginava que...
 Que eu não o soubesse.
(longa pausa)
 Se o sabe porque não desiste?
 Como posso desistir da única coisa que me toma? Não seria acovardar-me?
 Sim. Mas, se no seu íntimo, sabe que não conseguirá...
 Não! É justamente meu íntimo que diz que eu posso conseguir.
 Então prepare a sua viagem, estude as estratégias, busque um caminho, faça aliados e, nunca, desanime.
 O senhor não consegue enxergar. Eu já imaginava.
 Enxergar o quê? Que voltar ao útero já é desanimar?
 Isso! Como adivinhou?
 Não adivinhei. Simplesmente não era dessa viagem que me referia, mas se prefere essa posição...
 Não prefiro essa posição. É como um vício. Já faz parte de mim.
 O tempo do senhor acabou.
 Será que me esvazio? Sim, por que absorvo tanto...
 Queira retirar-se.
 É a dureza do mundo que mais me perturba.
 O senhor é duro com todos que o cercam. Ainda quer colo?
 Não consegue ver isso como defesa?
 Não. Temperamento. Saia por favor.
 Sente medo de mim.
 Por que o faria?
 Pela vontade de cuidar-me. Quantos anos tem?
 Preciso que saia, senhor.
 Cinquenta talvez... Não quis ter filhos?
 Não deseja agora que eu seja seu pai, não é? Até por que o senhor já está de saída.
 Minha mãe. Preciso de uma mãe e seu útero antes de completar trinta e cinco anos.
 Saia agora, senhor!
(o homem sai de cabeça baixa)


CENA II

O psicólogo - Como passou a semana?
O homem - Belo colete.
 Imagino que buscando meios...
 Sempre!
 Para quê?
 Como pra quê? Olha, eu não sei por que ainda volto aqui...
 Também me pergunto, já que acha que não posso ajudá-lo
 Disso tenho certeza. Acho que volto por...
 Carência?
 Acho que volto por...
 Falta de escolha?
 Acho que volto para olhar essa sua cara de...
 De...
 De entendido das coisas...
 Sei...
 É engraçado ver tanta segurança que vai se esvaindo aos poucos dependendo do que eu disser.
 Desculpe-me, mas engraçado pra mim é...
 O que é engraçado pra você?
 A maneira como você muda o foco para mim, a maneira como insiste em avaliar-me. Sente medo de mergulhar em suas questões. Diverte-se as minhas custas. Sabe quem ganha com isso?
 Acho interessante sua existência, meu caro....
 EU ganho com isso. Sabe quanto?
 ... a maneira tranquila como leva a vida, sentado aí nessa cadeira.
 Sim VOCÊ sabe o quanto...
 Quero tornar um pouco lúdica a sua existência.
 Façamos isso com a sua vida. Para isso estamos aqui.
 A minha vida está por um fio, meu senhor. Quase já não existe mais a olhos nus.
 Há sempre uma esperança.
 Suponho que esteja enganado.
 Não suponha. Certifique-se.
 As suas ordens não mudarão em nada o destino de nossas conversas.
 A sua má vontade não mudará em nada o seu destino.
 Que destino? Já falei que estou por um fio.
 Então volta a essa questão? Quer conversar sobre isso? Aprofundar-se nas razões dessa hipótese?
 Não. Preciso ir.
 Sente-se. Seu tempo está só começando.
 As suas ordens não mudarão em nada...
 Isso veremos! Quero que traga-me, na próxima sessão, a sua mala.
 Que mala?
 Ora, que mala?! Não pode viajar sem uma mala... Ou já mudou de idéia?
 Nunca!
 Pois quero que faça a sua mala. Não esqueça-se de nada, pense em cada detalhe. Mas seja prático e eficiente. Acredito que fará um bom trabalho. Agora pode ir.
 Sei que está fazendo o meu jogo.
 Então está jogando?
 Conheço as suas estratégias. Sei dos seus meios.
 (retórica) Pois então?
 Gosto da sua disponibilidade.
 Pode se retirar, senhor.
 Gostaria de ir comigo?
 (não entendendo) Como?
 Gostaria de seguir viagem?
 (retórica) Me tornaria seu irmão?
 Não. Eu não pretendo nascer. Os títulos da árvore genealógica nos são dados como os nomes, exatamente depois que nascemos. Antes disso, somos apenas hipótese, podemos até morrer: assassinados, suicidados ou por susto. Antes de nascer, somos só sementes. Adoro sementes!
 Quer que eu seja semente com você? O que mais quer que eu faça com você?
 A minha mala.
 Não! Senhor, o seu tempo acabou. Aguardo-o na próxima semana de mala pronta.
 Vai comigo?
 Depende...
 ...
 Do que estiver na mala.
(O homem sai de cabeça baixa)


CENA III

O psicólogo - Como passou a semana?
O homem - Pensava no destino.
 No destino? Aquele que você não possui?
 Não, no destino de minha viagem.
 E...
 Lembrei do mapa.
 Mapa?
 Sim, preciso de um mapa para seguir viagem...
 (retórica) E espera encontrá-lo aqui?
 Não espero nada do senhor. Nem ao menos deste lugar.
 Lembro-me que, a princípio, pediu-me que fosse tua mãe. De outra vez pediu-me que fosse seu companheiro de jornada e agora dize-me que...
 Magoa-se?
 Me fale do mapa.
 É a única coisa que importa . O único elemento da mala.
 Não pensou numa lanterna?
 Uma luz artificial?
 Já supôs que a jornada pode ser mais interessante que o destino final?
 Ora! Não me venha novamente com essas frases feitas, por favor.
 Irrita-se com a hipótese?
 Irrito-me com essa insistência para que eu respire. (pausa) O que iluminaria, se levasse comigo ou conosco, quem sabe, uma lanterna?
 O que há de mais importante: O mapa. E o que consta no mapa: o destino.
 Vejo agora, meu caro, que não pode sequer alcançar meus meios. Prefiro fazer sozinho minha viagem. Até breve!
 Sente-se!
 Não entende que o mapa é a própria luz, senhor?
 É o que busca aqui?
 Não.
 O que busca aqui, senhor?
 Preciso ir...
 O que busca aqui, senhor?
 E o senhor, o que busca em mim?
 ...
 Nada... o senhor não busca nada em mim...
 Quero apenas ajudar-te!
 Como, se nem ao menos acredita em mim?
(pausa)
 Não pensou que pudesse sentir sede?
 Sim. Diga-me: se eu levasse água o que isso significaria para o senhor?
 E fome? Não pensou na hipótese de sentir fome, senhor?
 Queria então que eu preparasse um sanduíche? Para a viagem?
 Não. Mas sei que preparou alguma coisa para a chegada, não?
 ...
 Ou será que o destino final não é tão importante assim?
 É o que tem de mais importante, senhor.
 Então que preparasse algo para a chegada, que cuidasse dos meios pra se fazer a viagem e principalmente que me trouxesse o mapa. Desculpe-me, mas não posso seguir viagem com o senhor. Não com esses meios.
 Era o que eu imaginava.
 Por hoje é só, senhor.
(o homem sai de cabeça baixa)


CENA IV

O psicólogo - Trouxe a mala então?
O homem - Sim
 Gostaria de abrí-la então?
 Não
 Por que não, senhor? Vejamos o que tem aí.
 Trouxe muita coisa senhor, e tudo duplicado, caso queira seguir viagem comigo.
 Sei... E por que não podemos ver os objetos?
 Porque preciso falar-te antes de mais nada.
 Prossiga...
 Penso na questão do equilíbrio...
 Sente-se em desequilíbrio?
 Preciso encontrá-lo para partir.
 Como, diante todo esse vazamento d'água?
 Não admito esse tipo de julgamento, até por que contive tudo o que vazava.
 Convenhamos que há um vazamento de forças ao menos.
 O que significa forças para você?
 As perguntas. Aqui quem as faz sou eu! O que significa esse vazamento de forças?
 Sinto pena de você.
 Significa a falta de equilíbrio, pois sim?
 Não
 O equilíbrio que falta para a viagem, pois não?
 Continuo na questão da pena...
 Pois desapegue-se. Quando, por toda sua existência, sentiu um completo equilíbrio? Um equilíbrio integral.
 Prefiro não dizer
 Claro, já imaginava, sempre dificultando as coisas. Nasceu para isso.
 Está jogando
 Está entrando
 Onde?
 No jogo
 Está errado.
 Prove!
 Foi aqui...
 Onde?
 Aqui. O equilíbrio. Foi aqui
 Agora entendo por que ainda retorna a este lugar
 Não retorno pelo lugar. Retorno pelo meu companheiro de viagem. Amo-te.
 Não vá
 Amo-te como amo minha vó que não conheci
 Pois não vá!
 Amo-te integralmente. Corpo inteiro e são. Demasiadamente atento. Desequilibro-me por ti.
 Repudia-me! (pausa) Não vá.
 Sou obstinado.
 Pois não acredito.
 Deve ter seus motivos...
 Sim, os tenho. Sei que hoje, logo de manhã, no seu quarto de dormir...
 Não te dou esse direito!
 ... no episódio da mala, pensou nessa ânsia de se parar...
 Fiz a mala ontem a noite.
 Que seja! Pensou nessa ânsia de se parar no meio. Estou errado?
 Está errado quando julga-se capaz de saber coisas que estão além do entendimento dos mortais.
 Sempre pára no meio. Estou errado? A coisa inacabada satisfaz a sua preguiça.
 A minha obstinação não abarca essa triste preguiça a qual se refere.
 Triste?
 Sim, triste.
 Então ela é triste?
 Vou embora.
 Então ela existe!
 Não diga mais nada, é inútil.
 Ela existe e é triste, é esse o caráter dela
 Chega. Preciso ir antes que comece eu a repudiar-te.
 Não vamos abrir a mala?
 Vou embora.
 (provocante) E então, no episódio da mala, enquanto guardava coisas pouco importantes, pensou que a coisa inacabada causa a maldita frustração de não terminar o que se propôs a fazer.
 Essa ingenuidade o cega.
 Não se preocupe, eu tenho as minhas lanternas. (quebra) Já pensou que desistir antes do fim é a mais consciente das obstinações? A - bor - to!
 Explique-se.
 Quando se tem a consciência de estar seguindo o caminho errado, a obstinação pode voltar-se para a mudança. A obstinação pode abarcar toda a desistência.
 (saindo) Preciso ir.
 Nem ao menos sabe onde usar sua determinação! Definitivamente, sou eu quem sente pena de ti!
(o homem sai deixando a mala)


CENA V
(mala aberta e seus símbolos)

O psicólogo - Gosto da maçã. Simboliza o alimento. Sem fome viaja-se melhor.
O homem - A minha maçã nunca simbolizaria o alimento.
 O pecado então.
 Julga-me clichê?
 Pense num poema. Sabe que um poeta não escreve pretendendo o entendimento do leitor? Permita-me que interprete seus objetos metafóricos da maneira que melhor me convier.
 Mas a mala é minha.
 Não seja infantil, a mala é do mundo.
 Ok, então. Os sentidos...
 A maçã?
 Não é dela que estamos falando?
 Quais deles?
 O olfato e principalmente a visão.
 E o paladar?
 Não pretendia alimentar-me dela na viagem
 Não devia seguir viagem, tenho cada vez mais certeza disso...
 Isso não me causa estranhamento.
 ... não viveu o suficiente a ponto de sentir paladares sem precisar alimentar-se deles.
 Ora, se é justamente o que busco na jornada...
 Gosto também percevejo.
 Novamente o olfato. Minha máscara dificulta-me esse sentido. Preciso aguçá-lo.
 De maneira desagradável, não?
 Não julgo o sabor pecevejo, nem ao menos seu cheiro.
 Gosta da neutralidade?
 Odeio a neutralidade. Busco esvaziar-me somente para completar-me.
 E o microscópio?
 A visão a olhos nus tem banalizado o todo, o mundano. Desejo ver além baixo das micro partículas.
 Algo para o tato?
 O fogo.
 Nada mais agradável para te aguçar o tato?
 Sou masoquista.
 Pense no fogo para o sentido da visão, pois é o mais belo dos elementos.
 Pelo amor de Deus, Homem! No episódio do fogo estarei com os olhos vendados.
 Desculpe-me. Não imaginava. Claro, falta-lhe coragem. Como não pensei nisso antes?
 Sim, falta-me. Preciso queimar-me sem que os olhos vejam a dor que queima e muito menos a dor do iniciar a queimar-se. Olhos julgam, sentem, respiram. Preciso não viver para então mergulhar no calor vermelho e coral das chamas.
 E o batom?
 Caso encontre a mulher que nunca procurei. É um presente.
 Sua mãe?
 Não havia pensado em grau de parentesco. Pode ser uma mãe, sim. Mas não a do útero, não a do destino final.
 Posso ficar com ele?
 (não entendendo) Como?
 Com o batom.
 Por favor.
 E se a encontrar? Presentearia a mulher com a maçã?
 Depende.
 Do que?
 Se eu tivesse o ímpeto de escrever-lhe uma poesia, daria a ela o mundo e a maçã. Mas se não tivesse...
 A maçã apodreceria na mala?
 Pois sim.
 Não entrega sua alma a qualquer um, pois não?
 Nenhum de nós.
 A mulher que não te inspira poesia sentiria o fedor de podre então...
 Obviamente. Se alguém te entrega tudo, mas não sua alma, você não sente esse cheiro de incompletude?
 Sim. Decidimos então se ali ficamos.
 Caberia a ela escolher, ou ao olfato dela. Ou ao amor dela.
 Amor?
 O amor nos faz sentir cheiro bom no lixo podre, senhor, e assim vamos nos enganando a cada primavera.
 Quer falar sobre isso? Sentiu algum dia cheiro de flores no lixo podre, Senhor.?
 Não...
 Nunca?
 Não quero falar sobre isso.
 Há um programa na mala... Um espetáculo teatral.
 Ali está contido todo o sentido, todos os sentidos.
 Que peça é?
 Isso não importa, poderia ser uma máscara que representasse o sentido teatral, poderia ser o busto de Dionísio, quem sabe uma pintura de Téspis amassando uvas no mármore... Qualquer coisa...
 O programa é só um símbolo?
 O teatro é o símbolo.
 Me fale dos sentidos.
 O que quer que eu diga, senhor? Simplesmente pense em alguma manifestação teatral que tenha presenciado e sinta.
 O que quer que eu sinta?
 Malditas perguntas! Tanta racionalidade mata a vivência, Diabos!
 O seu tempo acabou, senhor.
 Não era importante, pois não?
 (reticente) O quê?
 Que eu falasse sobre os sentidos, os sentidos do teatro.
 Fui eu quem perguntou. Quem se negou a responder foi o senhor. Preferiu julgar-me. Agora quero que saia.
 São mais de dez sentidos, senhor.
 Dez?
 Para cada um deles, levaríamos uma eternidade em discussão.
 Tentarei sentí-los então. Retíre-se.
 É para isso que eles servem.
 Vá, senhor.
 Por favor não esqueça-se do mais importante de todos.
 A visão?
 Não.
 A audição?
 Não senhor. O paladar.
 Gosta de confundir-me...
 Saboreie cada vivência, delicie-se delas na vida.
 Por que não leva a SUA vida assim? (pausa) Siga com essa pergunta. Até o próximo encontro.
 Eu não volto mais aqui.
 Sei que volta.
 A minha viagem já começou.
 Não acredito nisso. Espero pelo senhor.
 Não faz mais sentido a nossa vivência. Não há um conflito, um tema, um feito, uma ação. Não há começo e nem fim.
 Isso não é uma peça de teatro, senhor. Não estamos em cena e nem somos platéia.
 Óbvio que não. O senhor nada sente, não sabe o gosto do tato, não vê o paladar, não saboreia a audição. O senhor não vê, não arrepia-se. Não sabe ao menos quais são os outros sentidos. O senhor não sabe amar. O senhor não sensibiliza-se nem esfria-se. O senhor não equilibra-se. Não distribui a energia nem infla-se dela. O senhor não tem quereres, não mata, não trai, não chora, não vive, não acalenta. O senhor não dorme e nem acorda. Não prende e nem solta o ar. Não entende a relatividade nem ao menos a gravidade. Pela sua janela não entra a luz do luar, senhor. Não é homem nem mulher, nem bicho nem ameba. O senhor já chupou manga? Os seus olhos não captam tudo o que tocam, eu bem sei. E os impulsos? Nenhum!
 Acalme-se. Nós dois sabemos que fala de si mesmo. Só seguirá viagem por que não tem mais vida.
 Poderíamos falar de cada uma dessas coisas, mas me falta tempo e dinheiro, ele que fede.
 Como a maçã?
 Não! Seu fedor é de completude. Vivemos em busca dele, a procura dele. Os ovos da páscoa que nos completam e trazem a felicidade.
 Existe um lugar, senhor...
 Sim, no núcleo da terra. Lá as pessoas buscam a felicidade dentro de si mesmas. Não sabem o que é dinheiro e portanto sequer imaginam que aqui na superfície, ele é a razão da nossa existência.
 Existe um lugar, senhor...
 Sim, o campo. Lá as pessoas plantam e consomem o que o solo dá. Elas sabem, por instinto, que isso é certo. Mesmo que, um dia, um maldito homem que criou um maldito sistema com sua maldita racionalidade tenha dito: “ Está proibido por lei comer mandioca!”. As pessoas nunca deixarão de comer mandioca, Senhor. O fogo nos foi dado pela natureza.
 Existe um tempo...
 Sim! A antiguidade clássica. Lá, nesse passado que ainda corre em nossas veias, as pessoas sabiam, também por instinto natural, que pertenciam a ninguém. Seres substância. Mesmo que um dia, um religioso tenha dito: “Em nome de Deus, seremos monogâmicos”. As pessoas gostaram disso, esperam isso da humanidade. Mas estatísticas provam o contrário. O instinto prova o contrário.
 Existe um lugar...
 Sim! O fundo do mar. É pra lá que eu vou. Acendo hoje uma vela para São Jorge, o soldado romano; ele que absorveu o dragão com a visão; ele que, canibal, comeu coração e asas do dragão; ele que, só ele, ouviu cada urro de dor e medo que nascia do estômago do animal vindo até a boca; ele que sentiu a quentura, que cega e arrepia, do fogo do dragão; ele que, antes de tudo, amolou a ponta da lança numa preparação eterna de quem vai sem pensar na volta. Acendo hoje uma vela pra são Jorge e, sem esperar que ela queime o mundo num incêndio, mergulho e fim.

(O homem sai de cabeça)

Qualquer um pode amar, mas só os hipócritas vivem felizes para sempre

Minhas horas mortas são suas.
Esse meu ócio é todo seu.
Você é meu quanto cheio, meu quando.
Pedaço de mim, meu braço.
Parcela do que não pude ser, homem.
Minha liberdade, parcela de prisão, arte.
Minha força bruta.
Minha lembrança, falta de memória.
Minha parcela árvore.
Te fertilizo hoje, e amanhã, só paixão.
Brutalidade de amar na mistura dos seres.

(Brutalidade de amar. Sempre. vida de Grandes amores. Inspiração. Coração que ama mais que os outros. Rins que param de filtar o amor. Entope Dor maior. Bruta violência de vida que engalfinha desde que nasce até quando morre... de amar)

E fez-se a espera, que era dELA.
Quando não pôde mais
tornou-se aberta, flor de mulher.
Quando não pôde mais, fez-se outra, a de antes.
E fez-se a espera, que era dela, até que,
Lúcida sobre a felicidade impossível,
invisível,
felicidade do 'jamais será pleno',
Tornou-se flor e, sem moral nem pudor, desabrochou.
Tornou-se flor, na sua espera conturbada de um mar vermelho.
Por entre as ondas e a praia
Tornou-se flor e desabrochou
(A consciência do 'nada mais se salvará' sempre esteve presente. E, só por causa dela, nada mesmo se salvou. Na ironia do tempo, do indiscutível, foi-se no rodamoinho mais uma vez aquela utopia. Perdem-se nele os dedos, os anéis, a nossa busca horizontal pelo que transcende na dinâmica da fissura; perde-se então o cheiro do rasgar do tempo, da medida exata.Perdem-se o inexato, o inexplicável. Perde-se a luta da inatividade com a inativação. Perdem-se o tema, o teorema. Perde-se o Enem, perde-se a hora. Reprova-se no teste do destino que apavora.)
Na ironia de Chronus, o big irmão assiste e ri.
Purifica-se a falha na combustão da catarse.
Um segundo errado no tempo de decisão. Impulso.
É quando se perde o controle do destino que te escorre das mãos

(Não me esforço por ser hipócrita, desabrocho em fedor de puta rampeira. E, sem cuidado algum, revelo a podridão que há em mim e te esfaquio como se não escorresse sangue pra limpar. Qualquer um pode amar, mas só os hipócritas vivem felizes para sempre.)

tade vontade vontade vontade vontade vontade vontade vontade vontade von

Quando dera por si, o dia já havia amanhecido na janela e já não pudera mais nada fazer por si mesma e por aquela sua vontade. Fora ao quintal como quem retornara aos quinze anos. o mês era das flores e o solzinho viera dizer-lhe que se arrepiasse toda. Obedecera a pele. Sentou no balanço suspenso de uma árvore e, com o testemunho dos pássaros e de seus cantares, pôs-se a balançar-se. Lembrou de como fazia para impulsionar o corpo de modo que voasse. Balançava as tranças como se elas ainda estivessem alí. Sorria lá pra baixo como se ainda houvesse papai lhe acenado orgulhoso por um futuro que quiçá se realizasse. Olhava lá pra baixo e deixava surpreender-se ainda com tudo o que via. Surpreendia-se e batia as asas.

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Tá sol lá fora. Meu rosto tem um olho só. O outro, não se sabe. Nu.
Arregala-te, máscara número um. Qual teu nome?
Várias em ti. falsas. Numerosas. Eu.
Olhava no espelho aquela que eles viam*
e se perdia no infinito de seres mortos.
Intervalo nascimento-morte, mar de máscaras até que sucumbas.

desinventania

(Para Gracy, Yves, Priscila e para todos os amigos que estão a um fio de mim.)


Da mesma maneira que vêm, vão. Uns nem vão, mas não estão mais aqui, por qualquer motivo inexplicável.
Da mesma maneira que o capeta me comprou, bem comprado, os sábados e os domingos também. Da mesma maneira eles se foram e me deixaram uma saudade de vazio, o espaço fica grande e meu coração ecoa nele.
Já não sei mais a cor da saudade ou do egoísmo dela.
Amigos, algumas músicas me lembram vocês e eu já nem quero chorar.
Uns se foram levando a praia com eles, outros levaram projetos e sonhos.
O que fica são as fotografias que eu já nem quero olhar.
O que que eu faço com as coisas que precisava contar, e os beijos que ainda queria beijar?
Amigos, quando eu penso nas coxias, elas fazem-se fazias, as lembranças.
Se eu pudesse, ah se eu pudesse, desinventava os países, os aeroportos, os ônibus e a amizade. Se eu pudesse desinventava o amor.

(Para as Micheles, os Rodrigos, as Carolinas, as Moniques e os fios que já não estão em mim)

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É esse embolo na garganta, que começa no estômago subindo pelo peito, apertando, amarrando, deslizando pra cima, sufocando, que sai pela boca, quando não pelos olhos, quando não pelos poros. É ele que não me deixa dormir, me adrenaliza, me lacrimeja, me afoga na dúvida. É esse embolo embolado, enlatado, liquidificadorizado, adormecido e acordado que me escorrega no espasmo de não saber o que é certo ou errado.

Julho e lucidez

Julho de 2009. Ela está de volta. A minha maldita lucidez bendita, está de volta. Meus pés pisam o chão novamente e as coisas, negando-se todas a flutuar, começam a fazer sentido novamente. Tudo volta a normalidade de antes, de maneira mais clichê impossível, e o ar fica mais leve de se respirar. Em termos de mistério, só os meus confundem o mundo. Parei de andar pelada por aí e o mundo novamente se questiona sobre mim. Quem será ela? O que esconde por detrás desses olhos e desse sorriso que de tão natural beira o proposital?
A mim, do contrário, nada mais intriga. O planeta é transparente e quase natural. As borboletas passam, os carros, os ônibus passam, as crianças passam, os homens. Consigo enxergar tudo de novo. Maldita lucidez bendita. Há bares, livrarias, cafeterias, lojas, bazares, igrejas, padarias, praças, cinemas, farmácias com os mais variados tipos de xampu para todos os diferentes tipos de cabelo, indistintamente. Há vida após a morte. Há teatros, museus, cursos de inverno. Há controle de trafego, de mim mesma e o mês de julho continua sendo desprezível.
Nada me faz rir se eu não quiser rir e nada me faz chorar se eu não quiser chorar. Controle total de mim. Maldito mês de julho, chuvas que precedem agosto. Metade, meio, onde tudo que se inicia, se acaba, acaba-se porque é meio de ano, quando nada recomeça. Inundação de desgosto. Morte. Abismo. Guerras. Bombas atômicas. Cabeças atônitas e beijos. Julho não é janeiro, não é dezembro. Julho não é abril, ah não, por isso a lucidez. Julho é julho, um pedaço de inferno por ano.

eu te amo, amor, te amo torto, te amo tanto

ELE impunha sua personalidade, traçava uma linha e antes de assinar, sem a mínima insegurança, punha um ponto no final. Impunha seu documento, sua assinatura, deixando nELA sua marca. Entrava com passos esmagantes por ELA e pela sua porta, fazendo o que bem quisesse, no tempo que bem queria, com a inocente desculpa de que era ELE a felicidade dELA. A felicidade materializada dELA, sem tirar nem por.
Eram dELE as melhores idéias do que fazer com o tempo dos dois que já não era mais o tempo dELA. Nada mais ali era dELA. As paredes se curvavam e o que havia de vermelho, como o sofá, perdia o tom sangue para exibir um simples rubor com a sua chegada.

(continua)

ELE impunha sua desenfreada necessidade de fazer o que bem entendesse. Os planos, colocava-os nas cores que quisesse e chamava-os futuro. Ele impunha um ponto no passado como se nada mais existisse perante sua presença insistente. Como se os dois nascessem de novo e escorassem suas covardias até aprender andar novamente. Quanto amor fora de hora, quanta urgência! Felicidade transbordante que bate a porta, seu nome não é mais inocência. Chuvas que vêm sem avisar, inundam o peito e ainda cobram brotar. Jardim despreparado é o nome DELA

(continua)

Minhas horas mortas são suas. Esse meu ócio é todo seu. Você é o meu quanto cheio, meu quando. Pedaço de mim, parcela do que não pude ser, homem. Minha liberdade, parcela de arte. Minha força bruta. Minha lembrança, minha falta de memória. Minha parcela árvore, te fertilizo hoje e amanhã só paixão. Brutalidade de amar na mistura dos seres.

(continua)

Brutalidade de amar. Sempre. vida de Grandes amores. Inspiração. Coração que bate mais que os outros. E fez-se a espera. Quando não pôde mais tornou-se aberta, flor feminina. Quando não pôde mais, fez-se outra, a de antes. E fez-se a espera, que era dELA, até que, lúcida sobre a felicidade impossível, invisível, tornou-se flor e, sem moral nem pudor, desabrochou.

(de endi, sim, é o fim)

RODRIGO


_ Ele morreu.
A mulher sentiu uma espécie de ventania na barriga, dessas que derrubam as árvores mais vulneráveis, as mais fininhas, de cascas grossas-mentirinha.
_ É você mesmo?
_ Inacreditável! Quanto tempo faz...
_Tantos acontecimentos desde aquela infância de triângulo que era só nossa.
_É verdade. E ele, como está?
_ Ele morreu.
Trovoadas. A mulher-eu molhava-se em chuva de virar sombrinhas de bolinhas vermelhas ao contrário-parabólica. Infâncias, imagens, mamãe se afastando dos adultos pela fumaça-preconceito que subia, indo ficar com as crianças-descobertas-beijo na boca-doce-de-suspiro.
_E ele, como está?
_Ele morreu.
_Como pode?
Dor de vento arrancando desde as raízes até as folhas, amoras caindo fora de época. Cabeça girando ao avesso-indefinição. Dúvida se tinha sido amor. Perda da esperança de encontrá-lo ainda e dizer que tinha sido bom aquele carinho-cabelos e corpo na luz escura deitados à cama do lado-testemunha da vovó, que deixava porque tudo deixava, que dormia.
_Foi um acidente. Ele estava ainda com dezoito, quando os tios resolveram separar suas vidas-traídas, e de quebra descobriu, não-sei-como, sobre a adoção.
A chuva interna se agitava-convulsão. Sua morenice, pra mim morenice-de- encanto, era o que mais o incomodava-suspeita. Quanta mentira desnecessária!
_Quanta mentira desnecessária...
_Era o que eu pensava, sempre desde criança, quando nem logicamente pensava, já achava, sem comentar porque não sabia como começar.
_Era também o que eu pensava.
_Você sabia?
_ ...
_Eu sei, todos sabiam.

_Ele não sabia.
A chuva trazia a lembrança de papai nos contando e pedindo maior-segredo-do-mundo. Estória curiosa, família-mistério, triângulos traídos em quartetos, filhos adotivos-segredo, mentiras das cinematográficas, tema pronto-desfeito-de-medo pra menina que começava escrever metáforas na escola e fora dela. Brigas, afastamento. Como ele havia crescido? Que outros mistérios reservava por detrás da cicatriz que ia do peito até a barriga? Sim, tinha sido amor, agora ela, a mulher que sou, sabia, tinha certeza da dúvida.
_Aos dezoito sacou uma arma-automóvel e se atirou na primeira curva que encontrou. Tiro certo, morte errada.
_Lastimável!
_O primo era meu, e você surgiu mais linda, magra, mais apropriada do nome que era nosso, o mesmo.
-Éramos criança, eu não sabia dos seus sentimentos, nem dos dele.
Mentira. Quantas cartas de amor os tios quiseram me mostrar. Revelações-brincadeiras entre as cervejas geladas nos fins-de-semana. Nunca as li. Quanto amor-dos-inocentes-infantis deixei de dar. Rodrigo se calava, não gostava, eu gostava-não-gostando, ele calava e mergulhava na piscina e, na sua morenice, ia e vinha de canto ao outro no azul dos azulejos por debaixo d'água. Ele só emergia quando o assunto encerrava, eu... esperava. Como é que Machado, tempos depois descobri, conseguiu predestinar nossas traças?
_Nossa, quanta saudade me bateu agora...
_Quanta saudade!
_Preciso ir.
A mulher queria chover sozinha, no escuro.
_Preciso também.
_Desculpa, e você como está?
_Bem, casada, eu e as dietas. Agora sem ajuda da mamãe. Você, linda.
_Isso você criou.
_Ele criou.
_E você tomou pra si.
_Tudo dele eu tomava pra mim, as cartas, todas elas pra você, ele me mostrou. Eu as tomei pra mim. Se quiser, ainda as tenho.
_Que nada! Coisa de criança...
A mulher queria sim, mas não podia. As releituras doem mesmo que nunca tenham sido lidas.
_Abraço nos tios
_Outro, dos grandes.
Saíra dali, eu-a-mulher, chovendo-se inteira-metade e pensando em como o filme de ontem a fizera lembrar e sonhar, acordando cheia de mistérios no olhar e como, no caminho cotidiano, encontrara aquela de mesmo nome que o seu, que já não mais menina era, pra contar-lhe o ocorrido com Rodrigo, dono dos seus sonhos de criança, dono do seu sonho de ontem a noite pós filme. Noite. Sempre a noite. Lembranças. Mamãe e papai queriam sair-sozinhos-luz-do-luar com os pais do Rodrigo, ficamos com a vovó dele. E já tudo planejado nos deitamos lado a lado. Brincadeira de criança. Carícias que jamais me largaram a memória. Segredo dos urgentes, medo de alguém descobrir que havíamos perdido a virgindade do coração.
_Eu sei que você gosta de mim._ Rodrigo disse-me um dia na hora do recreio. Eu mesma não sabia. Acabava de descobrir, a mulher que chovia na chuva, que sim gostara de Rodrigo com o maior e mais inocente dos amores. O que ele havia se tornado naqueles oito anos que ainda viveu e nunca nos vemos? Desentendimento dos nossos pais. Afastamento físico, não de sentimentos. Afastamento cruel, dos que não se explicam. Saudade não declarada, nem questionada, nada, para agora, em meio ao cotidiano, encontrar um alguém de mesmo nome que andava por esse tempo no clube dos escoteiros, para avisar-lhe sobre a morte.
A mulher abriu um guarda-chuva que me fizesse sombrinha. Eu abri um guarda-chuva que cobrisse a mulher. Proteção. Só ela, sozinha e a sombrinha. Ninguém mais, no meio urbano do qual queria fugir-mas-paralizava, abrira um guarda-chuva. Ninguém. Será que não chovia? Pensou em esticar um dos braços para testar, mas desistiu.
_ Não se tira o cobertor de cima nem pra olhar se o bicho papão se foi, nem pra isso._ A voz de Rodrigo-menino soou no meu ouvido direito. A mulher, que era eu, tremeu de frio. Sim chovia, mesmo que ninguém na rua se protegesse.
_Mãe! É um pombo! Olha, um pombo morto... Olha mãe... do lado daquela mulher-de-guarda-chuva-de-bolinha! _ Era a voz de outro menino, dessa vez no ouvido esquerdo, um pouco acima do coração. Aquela mulher-de-guarda-chuva era eu. Só fiz olhar pra baixo, bem devagarzinho, e lá estava ele, morto. Acidente de carro. Conseguia reconhecer alguns órgãos, menos o coração já que não sabia como era o coração dos pombos. Viu o fígado, as tripas, o sangue. Viu as partes internas do pobre esmigalhado e pensou no porquê de tanto asco. As pessoas em volta olhavam curiosas e saíam de perto. Uma menininha, dessas que eu fui um dia, pôs a mãozinha na boca de vômito-espanto. A mulher pensou, eu e ela pensamos, que o pavor de ver um ser-vivo-morto era pela questão da morte ou pelo medo dela e ainda por ver a si, ali migalha do ser. Lutou contra o asco e olhou. Olhou cada detalhe do pombo morto, suas asas. Olhou. Lutou. Lutou assim como luta contra a cebola. Chora, mas chora com dignidade, sem desistir dela. Corta bem cada fatia, cada quadradinho. Gosta de fazer salada. E olhando o pombo pensou no choque, no abalo, no exato momento da queda. A chuva.
Continuou andando pelo cotidiano, a mulher que era normal, ela e seu guarda-chuva a procura do arco-íris. Como este não aparecera, decidiu pelas frutas, uma de cada cor. Comprou bananas, maçãs, um abacaxi somente - porque abacaxi não se compra muito pela acidez-suicídio que carrega consigo – laranjas, das doces – adorava laranjas – e limões. Sim comprara limões. Depois das frutas decidiu por livrar-se do guarda chuva, já que não tinha nem mãos pra carregar, nem asas pra voar, percebendo que realmente não chovia como já desconfiara antes, mas comigo não quis cometar já que somos a mesma pessoa e não tinha sentido ficar falando consigo mesma em meio ao cotidiano.
Assim que chegou em casa, nosso ninho, ninho de todas nós que existimos nela, a mulher separou as frutas que pediam geladeira, afim de que se retardasse o amadurecimento, das frutas que pediam fruteira, lugar que colocamos nossas parcelas imaturas, o que ainda temos de verde, de inocente. Pensou no que fazer para sentir-se útil ao mundo e, como nada viera-lhe a mente, abriu a janela e pôs-se a olhar os pombos entre uma tragada e outra do cigarro que restara apagado junto às cinzas no cinzeiro que tinha o peitoril da janela como seu lugar cativo desde que mudara-se e decidira que a solidão era sua melhor opção já que sua mente era populosa e poluída de assombros e arroubos. Música talvez, não, melhor o silencio. Sentiu o silêncio feliz dentro de si. O silencio feliz dos que têm vida a se viver, mesmo que não asas pra voar.

Um amor pra vender

Tinha cá pra mim
que agora enfim eu vivia sim um grande amor
mentira
Me atirei assim de trampolim
fui até o fim, uma amador
mentira
Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
Exijo respeito, não sou mais um sonhador
Chego mudar de calçada
quando aparece uma flor
e dou risada de um grande amor
Passeava pelo caminho dos que já não acreditam no amor. Por esse mundo prostituto de sorte e azar. Passeava pelo caminho cor de rosa dos incrédulos quando se pensa em inocência. Passeava, o mendigo, pela estradinha dos apertos no coração. Orgulhoso de sua covardia disfarçada, passeava e ouvia a música das serenatas sem comer os bombons. O mendigo caminhava pelo passeio enquanto passeava pelo caminho, orgulhoso de todos os seus distúrbios de pesonalidade. Essa sua malemolência. Ah! essa sua inconstância de corda bamba. Seu exagero anda a pernas de pau. Sensibilidade emocional. De tão profundo, superficial. O mendigo.
Passeava pelo caminho dos que já não querem domar seus leões. Passeava pelo caminho dos que estão só e negam-se a acreditar tamanha a lista de amigos no orkut. Acorda, queridão, o mundo é seu e você é de ninguém. Deus já te esqueceu e foi ao shopi fazer compras.

OFF, a campanha

Um brinde ao poder do ar condicionado
Um brinde à frieza das capitais
O que me resta é a embriaguês do pão com manteiga nos ponteiros do intervalo.
"Sou adepto a tudo que me ali-mente e que não me arranque os olhos" Ele suspirou aprisionado.
Um brinde a gravata bem arrumada
Um brinde ao esquecimento
Um brinde à fome
Ao enevoamento dela.
Brindemos ao sol que ainda brilha e nos queima a pele pelas verdinhas que nos rendem o buraco.
O que me resta é a embriaguês de ser apolítica, sobrenatural e anormal.
O que me resta é a embriaguês.
Um brinde ao poder gélido e fálico do dinheiro e do paralelo
Um brinde ao ON
Um brinde ao OFF
O que me resta é a embriaguês de fechar os olhos e esquecer o domínio dos satélites.
Um brinde ao exílio de 3 meses pelas verdinhas e o buraco no peito.
O que me resta é a embriaguês de ser um pedaço do mundo.
Um brinde ao armário de cozinha e àquele espaçozinho que me cabe entre a panela e a pressão.
Um brinde ao noticiário da televisão.
O que me resta é o botão e a embriaguês de um creme de não definhamento para área dos olhos e mãos.

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Mulher sem pecados. Assim sem defeitos, sem ódio algum, sem prisma de mistérios oriuno do profundo ou da superfície da pele branca, quase clara de alvura ou pretidão que sempre há no interior das células de quem é mestiça no mundo do impuro, misturado, segregado, púrpuro, mate com limão. Desagrado. Fé. Mente. Desmente. Ela sente a ferro e fogo a vontade de chorar e ser frágil na sua brancura de alma, afeto lunar, astral, imperceptível ou quase nunca. Quis ir embora dalí. Fugir. Sentia frio. O que é uma mulher com frio? Fragilidade ou força negada? Perguntas. Gostava do selvagem. Homem das cavernas do futuro. Mente a frente. Medo de ser, já sendo. Domínio de sí. À parte e sempre. Cheiro, suavidade. Poema sem sentido, sua vida de busca. "É bacana ter uma calça dessa no armário". Resolveu comprar. Alimentar-se do nada. Cheiro de novo. Prazer. Inspiração. Telefonara-lhe o homem das cavernas. Celular. Cutâneo. Prisma de mistérios. Luz. Paciência. crescimento. Queria seu cheiro. E só. Em nada mais lhe acrescentava. Sentia-se completa. Sem vazios a serem preenchidos. Medo da morte? Nenhum. Medo do escuro. Busca algo que lhe controle a ansiedade de sentimentos apressados num túnel engarrafado e abafado. Algo que segure o tempo. A segure no tempo do ainda não possível, cheio de possibilidades esperando uma mão que as prenda e as faça vida e ponto. Ponto de ebulição num só ser. Prazer de existir e respirar. Prazer da escolha. Do abrir mão. Da decisão. Faz parte do seu egoísmo. De não dividir seu tempo, só dela, com mais ninguém.

Farrapos de amor


Quando pôs-se de casa pra fora, de mim pra rua, quando foi-se... levou consigo tudo de mais colorido que havia em mim e no quadro que haveria ainda de terminar a pintura. Quando foi-se, pedaços, farrapos de amor, levou consigo a inspiração enevoada de arco-íris pra deixar aquela de reconhecimento, de cortinas abertas, de definidos sentimentos.
Hoje sento-me aqui e espero. Quando a campainha tocar, e ele entrar, quando o café sair e o cigarro apagar, quando eu dormir e ele acordar... Ah... quando seu gosto se fizer tão próximo e quase vivo de mim, de nós, no momento que me amoleço de rir, no que me sinto fraca ou quase sem a força de respostas inteiras ou fatiadas para perguntas ressacadas, é nesse quando doído que eu refaço cada adeus até não mais conseguir me despedir. As palavras, elas são em francês, saem da boca e arrepiam cada um dos ouvidos que, de tanto ouvirem zunidos agudos, fazem-se surdos.

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Ah, Capitu, meu anjo! Quanta falta de inspiração! Quão vazio de metáforas ou eufemismos está meu coração por ti! Ah, Capitu, és dona de lágrimas malditas. Elas que se escorrem da tua ressaca pois também se querem enterrar e eu casmurro por ti, por nós, por mim.
Ah! Pequena e frágil Capitu, quanta força! Hoje fechei a gaveta da escrivaninha... mas, ah Capitu, o cheiro de rosas ainda exalava de lá(!) Escrevo-te tamanho meu desespero de apagar-te de mim porque'eu tenho a minha dor, que é minha só, não é de mais ninguém'.
Quanta ausência você me deixou!
Oh, Capitu, quantas sombras em mim! Quantas marcas de ti, meu amor de perdição! Refaço tuas tranças sempre que o calor se faz de madrugada e amo teu corpo, tua coxa, tua voz... Refaço-te ainda a cada nova poesia.
Com amor, Bentinho


Ser-te cachoeira

QUERO QUE TE FAÇAS MEU SÓ PELO VENTO QUE SAI DE MIM PARA QUE TE ESFRIES DO CALOR MEU QUE TE AFOGA.
E QUERO QUE ME FAÇAS TUA SÓ POR ESSE TEU CALOR EM FUMAÇA QUE SAI DE TI PARA QUE ME AGASALHE DO FRIO QUE É TE PERDER.
QUERO QUE ME CIRCUNDE A VIDA SEM CONTORNOS, ELA QUE ANSEIA POR SUAS BARREIRAS E SEU CORPO, COM SUAS MÃOS QUE, GRANDES, ME AMALDIÇOAM A SER PEQUENA ATÉ QUE CAIBA NELAS E NÃO CORRA MAIS PERIGO.
QUERO A TUA MÚSICA NA MINHA TRILHA,O TEU TRILHO PRO MEU TREM QUE DESCARRILHA, O TEU GOZO NO MEU COLCHÃO QUE DESENFREIA.
QUERO O TEU GOSTO NA MINHA LÍNGUA, E UM MUNDO INTEIRO A CIRCUNDAR DE AMOR.
QUERO A TUA CALMA PRA MINHA INTENSIDADE, A TUA ÁGUA PRO MEU FOGO DIFÍCIL DE AGUAR.
QUERO ESSE TEU PODER DE RECEPTOR ENQUANTO ME DOO, TOMO-TE MEU E AMANHEÇO IMPREGNADA DE TI.
QUERO ESSE TEU RESQUÍCIO, TUAS MARCAS EM MINH'ALMA QUE É TUA PELO MEU PODER DE SER E ESTAR PARA TI.
AI, COMO QUERO! QUERO ESSA TUA SALIVA QUE ME SALVA DA SECURA QUE BROTA DO EXTASE QUE É TEU BRAÇO NA MINHA CINTURA.
QUERO DERRETER POR INTEIRA TODA A MINHA POESIA QUE É TUA, DAR-TE TODO O MEU MEL QUE ESCORRE PELA MADRUGADA E O MEU LEITE QUE DERRAMA NOITE E DIA POR TI, NO TEMPO QUE ME PERCO DE MIM.
QUERO MORRER E FLORESCER A CADA PRIMAVERA SE FOR POR TI
QUERO DAR-TE MINHA CRIA QUANDO TIVER DE VIR, PEDAÇO DE NÓS, DE TI, DE MIM.
QUERO SER-TE CACHOEIRA DO COMEÇO AO FIM POIS SÃO TUAS TODAS AS MINHAS CORES, E SÃO MINHAS TODAS AS DORES E FLORES QUE BROTAM DE TI.

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O traveco havia feito o show. Uma maravilha só! Fora sequestrado pela louca que se dizia amá-lo pelo poder que tinha de tornar-se mulher. A essa altura da madrugada-quase manhã lutava contra as cordas no seu punho e contra a psicopatia da mulher tomada de amores e carregada de um passado.





Vários porquês circudam minha cabeça. É só o que sai de mim: Por que?
Quantas interrogações mais preciso remeter de mim pra ti?
Quantas infelizes perguntas amaldiçoam essa minha mente vazia de respostas!
Quem sou eu? Não me reconheço mais quando ao redor desses punhos brotam cordas desse teu amor doentio que vive em silêncio e violência.
O que sou eu pra ti? Que veneno lancei em ti para que viciasses de mim e me trouxesses pro teu mundo de fúria e maremoto?
A caça de amor, buscas mais do que doa. Faz dele tua droga contra a ausência, teu remédio contra a carência. Teu combusível, tua recarga, teu tapinha nas costas.
Do bolo, faz dele a cereja. Amor de complemento.

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De que babaca tem a vida atribulada, ah disso ninguém tem dúvida, principalmente o próprio babaca que, dentre lágrimas e tapas na cara vai enfrentando as malditas vicissitudes da vida, as linhas tortas daquele que escreve o mundo sem caneta, nem papel... imagina blog.
Existem uns babacas mais sortudos, que conseguem ver poesia na formiga que passa carregando nas costas o peso do mundo e andam na rua rindo ou chorando tapando o buraquinho do cigarro defeituoso, porque desgraça pra babaca é pouco, e fazem um filme dessa existência purgatória, cegos para o mundo superior, mas com a fé de quem jamais desacredita e busca força na própria força cansada e desgastada dos cabelos arrebentados. Pois é, babaca come rúcula pensando em chocolate.
Babaca sortudo é aquele que, na falta do perfume, banha-se em pétalas de rosas, é aquele que bebe da própria lágrima e faz do seu corpo a fonte da vida. Babaca sortudo é aquele que, sem sorte, acredita no azar como força renovadora, acredita no azar como um meio de ganhar humildade. Grande merda, babaca!
Babaca que é babaca não distingue o que é lucrativo do que é puro prejuízo, ele vai fazendo por amor mesmo, daí se fode... mas ganha alma. Ele não entende de matemática, é burro mesmo, perde tempo lendo poesia, ouvindo Belchior, se alimentando de vento (e rúcula) e se perguntado quantas pauladas mais precisa ganhar para entender aquele maldito livro de filosofia de capa cor-da-pele.
Babaca que é babaca anda sem documento ou relógio, mas é pontualíssimo porque segue o ciclo da lua (mentira, é porque tem medo da rejeição do sistema, medo da gravidade não funcionar com ele e aí se perder de vez pelo espaço).
E concluindo a redação, que nada tem de narrativa, pouco tem de descritiva, nem tão pouco é dissertativa, digo que babaca tem tempo de sobra porque não aprendeu o que é tempo, não compreendeu o passado, sabe nada de futuro e só tem o presente, uma caixinha surpresa cheia de medos e martelos e pessoas e paixões e cachoeiras. Sua caixinha tem tanto, e é tão cheia que se esvazia, pra encher de novo.

Poeminha de fim de ano

... é que às vezes ainda sinto aquele gosto de sabão no seu açúcar
é que às vezes vejo aquele mar fértil em peixes e vazio d'água salgada
é que ainda ouço as músicas daquela madrugada e sinto a luz apagada
é que às vezes eu ainda...
Quando o 'não mais' chegar eu vou te ligar e dizer que o nosso sol apagou-se em tempestade e já brilha em outro peito sem medo nem amarras
Nos cabelos, o doce do xampu atrai as borboletas, mas as moscas não se privam desse sabor
O ano finda, e aquele de planos perfeitos encerra-se melhor do que se esperava, um brinde àquela meia-noite que preferimos caminhar a mãos separadas

Impotente

Malditas são as crises d'o que será que eu tô fazendo?'
Persigo a cabeça do Nelson perdendo as peças do quebra-cabeça. Me perco. Apagam-se minhas luzes. Ninguém poderá analisar, nem jamais decifrar, o poema que é a mente humana. Está na hora da homeopatia! O que haverá de ser? Quais das inúmeras hipóteses da minha ignorância? O questionamento me faz viva e por isso vou morrendo. Cliques e flôres e aplausos... maldita vaidade do ator. Fotografia. EGO! Às vezes me sinto uma merda. Eee Muita Meeeerda! Perfura-se uma menina de 16 anos, sangue. Infinitamente IMpotente jamais alcançarás a dor de tamanho desespero. Jamais! Foda-se o real! Gosto mesmo é de TEATRO, por ele chuparia o fígado inteiro, o útero inteiro.Repudio tanto o superficial e me sinto como tal. Faca cravada na existência do artista. Quantos elogios! Junto uma flor pra cada palavra daquela, mas elas trazem espinhos. Presente de Deus? Não, presente do Diabo! Que Dionísio me perdoe os equívocos no seu espaço.
* para Chico Sampaio, que me deu a mão naquele sábado de dúvidas

O nome dela

No momento o nome dela é ensaio
No final do ensaio o nome dela é carona
Durante a carona coleciona pontos de referência móveis
Por que será?
É porque ela gosta de outdoors com feijão e balas valda...
É porque ela gosta das cores do arco-íris, mesmo tão cansada
E é porque ela gosta de teatro, que é tão móvel e tão ponto de... nada?
Não! o Teatro é todo... o ponto de referência.


* Para a Michelle que me dirigiu a alma em cena e o corpo na volta pra casa durante o processo de PERDOA-ME POR ME TRAÍRES. Que 2009 nos seja tão fértil ou mais.

Um mar inteiro

Pedaço do mar?
Tu é um mar inteiro
Um oceano!
Um pacífico, um atlântico!
Uma sereia... hipnose do cantar.
Um monstro marinho que urra no mar.
Salve Yemanjá!


* pro meu amigo e parceiro sempre Rodrigo Abreu

A.

Como as amoras e os morangos, o que tem de doce, tem de ácido.

O amor é o espelho de quem sente.

Lindo! Como o bicos das águias, é lindo... mas cresce na direção assassina de sí mesmo. Mata-te se não quebrado em desapego do belo, lá no alto inóspito da montanha.

É como soltar a fumaça nas cinzas e olhar que elas avermelham-se em brasa, crescem e te perturbam quanto ao lugar onde devem cair.

É como os santos que quebram-se na região da nuca quando jogados ao chão. E é pra debaixo dos tapetes que rolarão as cabeças em confusão.

É como os mais belos cristais, que são pontiagudos e donos da luz que te cega a visão.

É como a dor na fome que se perde ou nem se ganha

E te persegue no suor da mão e no não saber onde escondê-las em tremedeira

E, maldito invasor, se reflete na cor do vinho que se toma a meia noite daquele lugar onde a entrada nem era tão franca como se acredita, ou de qualquer outro lugar do céu ou inferno

É no movimento dos cabelos de quem monta no couro e agarra-se à crina, que ele está

É na tensa gargalhada em horas das que não existem, lá ele estará

No movimento de arrancar as botas a quatro mãos, ainda assim o encontrará

Enquanto (não se revela o tamanho da entrega) é o nome do tempo feliz que ainda se tem antes da solidão ou do abandono porque ele, que é espelho de quem sente, se alimenta da dúvida.

apaga a Luz

Te amo sem nem sentir
Te fechei na página errada
Data inadequada
Irreprimível medo de não dizer nada
Apaga a luz...
porque te amo a cada piscar de olhos
a cada gemido mal dado
a cada lágrima interna
a cada beijo abafado
Eu te amo no passado encerrado
no eterno inacabado

Um monólogo de amor

A minha melhor companhia

Não, não tenta entender... Eu também não sei o porquê de eu estar aqui, assim... de pijama e capacete, a uma hora dessas. Acho que foi a lua me trouxe... rs
Eu não tava bem, Júlia. Não conseguia dormir. Meu apartamento parecia ter aumentado de tamanho, senti um vazio... acho que era dentro de mim. Eu tava andando de um lado pro outro... até acendi um cigarro... daqueles que você deixou lá...
A lua. Você viu a lua? (pausa) Claro que você viu a lua, as mulheres sempre vêem a lua... Quando eu cheguei na janela, Júlia, e vi aquela lua eu entendi tudo.
O que eu quero dizer é que... eu não quero mais olhar a lua... se você não tiver do meu lado...
Não, não... eu não quero apressar as coisas... eu não quero que você pense que... eu não quero forçar nada...
Mas, Júlia, o que eu queria te dizer é que... você tem sido a minha melhor companhia nessas últimas semanas e... eu não podia esperar até amanhã pra te dizer isso.Por isso subi na moto daquele jeito, passei direto por todos os sinais vermelhos, por pouco não atropelei um entregador de jornal, quase fui mordido por um cachorro quando roubei essa flor, e assustei o seu porteiro que acordou com a buzina... ele deve tá me odiando rs
Na verdade, eu tenho vontade de gritar Júlia, eu tenho vontade de acordar todos os seus vizinhos. Eu tenho vontade de dizer que eu gosto de você, que eu tenho tido vontade de roer as unhas quando eu penso em nós dois, que eu tenho sonhado com você todas as noites e que quando eu acordo a casa toda toda tem o seu cheiro.
Calma? Como que posso ter calma? É difícil, pra mim, falar sobre essas coisas. Acho que eu nunca falei de amor antes...
Amor? Eu falei amor? (pausa) Sim, eu falei amor. Foi por isso que eu vim aqui, foi por isso que a lua me trouxe.
Eu precisava te dizer... que meu corpo inteiro está tomado de amor por você.
Não. Não precisa me dizer nada, eu só espero que você me convide pra entrar e me deixe te amar até o amanhecer.

Lita Sahun
* Para o meu irmãozinho, Yves Glen. Que te dê sorte nessa jornada. Te amo!

do Amor, a deusa


Quando você achava que estava tudo bem, que conseguiria viver sem amar, sem amor, sem doar, sem sofrer... que não teria problemas maiores que os financeiros, que seguiria sua vida sem nunca precisar "discutir a relação" ou "conhecer a família da..." Sim, você. Foi você o sorteado da vez.
O prêmio? ELA. Ela, que é uma mistura de Eva e serpente e maçã, de Mme Bovary e álcool e veneno, de Julieta e segredo e sonífero e punhal. Ela, que te suga, te consome, te enebria, te vicia. Uma droga!
Ela chegou sem fazer nenhum alarde e te fez simplesmente um nada. Um nada no melhor sentido da palavra: um entregue, um "total disponível", um "sem escolha", um carente, um "alegre". Te fez medroso e corajoso. Te mostrou como se rega a rosa do jardim. Te fez babaca e piegas. Te ensinou a amar.
Começou amando. Simples assim. Ela te amou... Te olhava com quem admira, te comia como quem bem degusta. Ela amava sem questionar, sem duvidar, titubear. Ela amava sem jogar. Simplesmente amava, sem reservas ou pudores, sem conceitos ou preconceitos. Ela fazia tudo isso com encanto de sereia (das mais perigosas), de bailarina, de estrela perdida...de atriz... uma deusa!
E aí, você, que está ciente de todos os seus lamentáveis e insuportáveis defeitos, de todas as suas terríveis manias, da tua cara de mané quando sai às seis horas da manhã para ir ao escritório de contabilidade... Você se pergunta: Eu mereço tudo isso? Eu contribuí com algum bom feito pro mundo? Não! Você foi sorteado. Simples assim. E esteja ciente da sua sorte: Isso não acontece com qualquer um.
Ela não tem sexo nem idade. Ah não! É feita de amor... e espontaneidade. Mas atenção: Ela grita, chora, diz o que quer e coisas sem sentido (só pra você, jamais pra ela), magoa-se com facilidade, é impulsiva e... Conclusão: Ela te encanta.
E o cheiro dela? O cheiro dela é daqueles que te arrastam pela mão e te levam. Você? Vai.
Nessa viagem, ela te torna tão tua, ela te faz tão dela que agora você não tem mais saída, já está entregue, já depende do sorriso dela e do ar quente que ela deixa quando passa.
Mas um dia (um desses malditos, de céu cinza e mal humorado. Um dia de trevas), ela some, vira mito (algumas delas nem bilhete deixam). Exatamente, meu caro, Afrodite nem sempre pode ficar. Geralmente esse tipo de anjo está só de passagem. Elas têm a função de propagar o amor. Simples assim. Te ensinam a doar-se, a render-se, a entregar-se. Elas te ensinam a viver.

tum tum tum

_ Quem era?
_ Não sei.
_ Não sabe?
_ Não. Foi engano...
_ Engano?
_ Sim. Nada do que foi dito era real. Nada do que foi sentido, verdadeiro. miragem de Oásis. Simples impressão. Coisa que dá e passa. Ilusão
_ Mas você ficou mais de um ano nesse telefone.
_ Era engano. Eu me enganava e acreditava. Sorria e chorava. Um ciclo natural (ou sobre-).
_ Não era só uma ligação?
_ Só? Não. Não conheço o pouco. Cavo um poço, dos profundos, a cada nova ligação. Busco diamantes, uivo pra lua sempre que bate meia noite...
_ Devia parar de atender telefones. Pode ser perigoso.
_ Sim. tenho evitado.

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gotejamento


punção


tv globo


bisturi


sangue


*

Quando minha nuca sentiu que sua presença se fazia, um touro, peito meu a dentro, explodia a cada pulsar de tum tum tum. Quando minhas costas te viram, espinha ereta, sons de maldita abstração cega para o tímpano direito. Poros, cada um deles, atentos nessa coisa de corrente sanguínea na maré cheia que vai e vem e chuá, circula e jorra vermelho. Corpo de poeta que desenha no papel do mundo denunciando cada estado desse de metáforas sentidas, que arrepiam do cotovelo ao nariz. Pupilas que dilatam, lábios entre-abrem-se e incham tamanha quantidade do sangue de maré alta e tensão e tesão e saudade. Nozinho na garganta amarrado pela coisa que só fez decepcionar. Tonteira, febre alta de espasmos de amor. Água gelada e peteleco na tampinha da garrafa!

*

O mármore dessas escadas está gasto bem próximo ao corrimão e é bom sentir que cada vez que passo aqui contribuo nessa anti-evolução, nessa gastura, nesse decompor-se da pedra.
Um tempo que se esvai em chuvas de verão, ou em flores de primavera chorona... tempo que não volta assim tão fácil, volta difícil no filme do pensar, do olhar pra trás.
Cheiro de adolescência, já que a vida quis assim! "Você me sorriu, lá se foi minha coragem".
Ah... aquele maldito frio de figurino que apertou start num coração que explode de barulho e pow!
O que me sobra de paixão e inspiração, me falta de resto então.
Um gato que peludo descansa branco na minha cama anuncia o demais, o mais, o além e vai.
Feliz até demais, algo de se desconfiar, sigo de sapatilhas nas pontas de cuidado com a fera que dorme. Ela que berra e se lembrada, pow!
Mas que belezura aí pelo mundo... Quem acredita que partida? Carrega-se a fera, devora-se a si mesma... e sorri. Que beleza de mulher!
Mas que belezura aí pelo mundo... Quem acredita? Denuncia-se ao subir com essa frequenciazinha as escadas gastas de pedra e corrimão, sorrizão.
Rega as rosinhas do jardim, depois de arrancar, dedinhos, cada um daqueles espinhos que nascem escondidinhos sem fim, que vem e vem.
Um barquinho se aproxima antes que se possa fechar olhinhos de dormir. Hummm espreguiça-se menina e fim.

A fábula de um amor frustrado

ERA UM AMOR DE BRINQUEDINHO, DOS MAIS USADOS, MALTRATADOS.
ERA UM AMOR DE BOTÕES, DOS DE COMANDO
DESSES DE CONTROLE, DOS REMOTOS
ERA UM AMOR DE SATÉLITE, DOS ARTIFICIAIS, DOS COLOCADOS LÁ
ERA UM AMOR DE DIAMANTE, DOS OFERECIDOS, MAS RECUSADOS
ERA UM AMOR DE COLEIRINHA, DOS POODLES
DESSES DE MADAME, DAS MAIS MIMADAS
ERA UM AMOR QUE NÃO ERA, DOS QUE NÃO AMAM, MAS CARREGAM SEMPRE UMA PLAQUINHA PESADA COM O AVISO:
AMOR ETERNO
MANTENHA DISTÂNCIA

Reflexões

Sempre me pergunto quantas vezes
a felicidade,
saltitante e trazendo bombons,
bateu a sua porta,
de dia ou de madrugada,
querendo fazer-se viva, real
porém você,
numa teimosia que dá prazer,
numa insistência de dor boa,
recusou sua entrada,
ferindo o encanto do novo,
na espera de outra felicidade
uma que não chega nunca
uma que é embrião nunca gerado,
morto faz tempo,
e tem uma mãe cega chamada esperança,
mãe que não morre jamais,
a não ser que lhe parem de alimentar.
Enquanto não,
vê-se a imagem macabara de uma imortal
cor amarelada, olhos opacos,
longos cabelos embaraçados
numa cadeira de balanço
ninando o morto embrião
de nome
felicidade utópica.
Sempre me pergunto quantas vezes
e quantas mais haverá
de recusar
*********
******
***
*
Espaço de reflexão mais besta esse tal de blog. Um perigo só. Ainda mais para uma ariana, filha de Oxum DANÇANDO pela 'experiência da perda que proporciona o amadurecimento necessário para futuras entregas amorosas. Conquistas, prazer, conflito, separações, reinícios. Através de MOVIMENTAÇÃO que oscila entre força, dinamismo e leveza, faz reflexões sobre a experiência do amor, no desejo de TRANSCENDÊNCIA nesta que é a mais sublime das aventuras do ser humano'* Um perigo só!
*"Duas ou três coisas sobre o amor" (espetáculo de corpos contemporâneos)

Poesia suja!

Numa fome canibal de sabor duvidável, numa tentativa de preenchimento do buraco/febre, cheiro, doença da pior espécie, carência, descontrole, dependência esquizofrênica/te arrancam o pão antes que fosse digerido e então vomitado/sim porque seria vomitado/te arrancam no mais prazeroso e doído deleite do paladar antes que te escorresse esôfago abaixo, antes que te matasse a fome, antes que te provocasse espasmos, antes que ruminasses. Maldita sorte! Que te resta? Poesia suja!

O meu ensaio sobre

Fiz uma viagem a um plano inferior. O grande peso de lá era a falta. Faltava um único sentido em unanimidade, a visão ( E tudo então faltou!).
O plano dos que não vêem. (Assim o era!)
Me detive ali na simples observação e estupefata cheguei a imaginar outro plano ainda mais inferior, onde subtrai-se mais um sentido. (Quem ainda insiste em afirmar que não somos selvagens?) imaginei outros mais inferiores onde subtraem-se todos os sentidos. (Quem insiste?)
Em meio aos famintos (por verem-se e que, por isso, devoravam-se a si mesmos e a mim então) pude enxergar um único foco de luz. Uma luz que perdoa. Só porque é o certo a se fazer. O orgasmo da visão então merecido. (Abra bem os seus olhos, pois aqui é rei quem tudo vê). A luz estava nela que pintou seus cabelos de loiro, quase branco, porque as ruivas não sabem nada sobre esse assunto de carne e só, sobre esse assunto de se perdoar e só por isso e tal.
Era possível! Fiquei feliz, mesmo estando alí. A imaginação levou-me agora às alturas, mostrou- me planos onde sentidos sobram. São mais de dez... ou dez e só, cabalisticamente imaginando. Lá, no plano dos que vêem, e voam, a desmaterialização é comum. (Orgasmo da desmatéria)
Lá não confunde-se o sentido do amor.
Lá os comerciais de margarina são reais e poluição nos mares ninguém sabe o que é.
Lá sonha-se com água (Sonhar com AGUA - Limpeza, purificação, corpo e espírito sendo descarregados. Água corrente: todo o mal está sendo levado para longe)
Lá sonha-se, aposta-se até o fim e não desiste-se.

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Tenho acordado CORAJOSA, dessas que não fica arrastando a merda pelos corredores da casa, ou tentando me afirmar nessa posição e foda-se o resto,

 "Coragem não é exatamente uma qualidade. É apenas um antônimo para covardia. E só uma coisa que te faz abrir a porta e sair pra rua. Sem frescura" (FERNANDA D'UMBRA-linda que só ela).


PORÉM minha amiga não menos corajosa PATTY DIPHUSA tem me procurado e, por incrível que pareça, até ela tem suas recaídas (entre um sexozinho gostoso e outro mais ou menos). Me contou uma delas entre uma dose de Whisky e um copo de ABSINTO e, como o domingo está CHUVOSO, vou relatá-la AQUI:



"... quando chove só consigo lembrar dos dias tristes e qualquer esforço para tentar superar isso me deixa ainda mais deprimida (...)
Hoje calcei umas BOTINAS DE BICO LARGO que comprei em Nova York, na última viagem que fiz junto ao meu ÚLTIMO GRANDE AMOR, do qual ainda estou em processo de DESINTOXICAÇÃO, abstinência.
Aquela foi a nossa última viagem. Compramos um par de botinas cada (Madonna usa umas assim no seu livro SEX: está próxima a uma janela com a luz difusa esvaecendo todas as rugas da cara, apenas os pés cobertos, e mesmo assim, só até os tornozelos.)
A compra dessas botinas foi o único ponto pacífico entre meu namorado e eu durante toda a viagem. Me emocionou lembrar disso, apesar de doloroso. Um dos sintomas que distingue o amor VERdadeiro do passageiro-e-FALso é que, no caso do amor verdadeiro, sentimos falta até dos maus momentos.
De todas as opções, escolho (SEDENTA como sou de novas experiências) a mais SENSATA, ou seja, TIRAR AS BOTINAS e fechar de supetão a torneira das recordações. Mas não basta a decisão, não é tão fácil ser sensata. Tento repentinamente tirar a botina, mas o couro está muito DURO e não consigo.
Apenas as calcei uma única vez, recém compradas em Nova York. De noite, no hotel, não consegui arrancá-las. Tive de pedir ajuda a ele. demorou, mas conseguiu. Que me perdoem as feministas mas os homens nem sempre são tão INÚTEIS. Agora, no entanto, ele não está comigo para ajudar, e, se não for ESPERTA, vou ter de dormir de bota. Talvez estivesse acontecendo a mesma coisa com a Madonna e a pobre estivesse na janela


(depois CONTINUA, tá?)






Batidinhas na porta

O dia foi amanhecendo e eu apaguei a luz pra te sentir melhor
O embrulho encontrava-se ainda preso por barbantes e as flores, de cheiro violeta, murchinhas no canto da varanda.
O sol queria brilhar, a paz queria entrar e tua mão quente ainda adormecia... na minha.
Coisa ainda de se causar estranhamento...
Tua alma não tinha nome... mas teria, e logo. Imaginações de sabor amora... madura.
Tentei esticar uma das pernas enquanto lembrava o som da sua voz.
Dormência é sinal de felicidade dando leves batidinhas a porta, lí num livro de desejos, num muro de rabiscos, na bíblia dos milagres, juro.
O sol invadiu de vez. O calor tomava ares de explosão no meu peito. O Joelho esticava-se com um 'bom dia' e um espreguiçar. Sorrimos sabor pão de queijo e fruta de verão.
Como é que eu explico pra mim essas sensações? O que será que eu vou dizer para mim mesma?
Deixei pra lá. Ainda faltava muito tempo de ponteiros para encontrar-me comigo mesma.
Preguiça boa de se dormir de novo.

O BOM versus O BOMESMO no período de estiada típica de inverno

O BOM é ter essa liberdade de ouvir só a música que eu quero, o bom é me olhar no espelho e me sentir a mais linda e corajosa do planeta dos disponíveis pro universo. O bom é ver que a lua me escolhe sempre que está cheia... O bom é ver a maré subindo! Como é bom!
O bom é abrir a porta de manhã e sair de casa com as mãos sujas de tinta colorida e um sorriso de quem tem um mundo de possibilidades. O bom é esse sorrisinho no rosto de quem flutua em núvens e nutre segredos inimagináveis.
O bom é pensar na cor da geladeira nova e na pintura que talvez se dê na porta. Isso é bom, bom, bom. Morrer de rir de uma piadinha cruel é bom.
O bom é jogar os dados no tabuleiro do 'Jogo da Vida', escalar o Evereste e sair pra dançar um xote coladinho.
É bom de manhã molhar as plantas pensando se adota uma gata ou um cachorro numa dessas andanças por aí.
ENTRETANTO O BOM MESMO... o bom pra uma ariana... o bom de emoção, de explosão... é quando as músicas são de se rasgar o peito, o bom mesmo é ver as olheiras no espelho de quem chora e adora. O bom mesmo é nem chegar na janela recusando o chamado da Lua que é só sua. O bom mesmo é não sair de casa só pra escrever um poema de dor, não ter vontade de colocar as bananas já maduras na geladeira. Ai, isso é o maldito bom!
O bom mesmo pra rosa que brota vermelha desde o início é andar de metrô sentada no chão e ter vontade de descer na estação do estácio.
O bom de se liberar adrenalina e se sentir a louca do mundo é ler a 'Gota d'água' e brincar de Bibi.
O bom mesmo, o bom doído, o bom que satisfaz é se entorpecer acreditando que felicidade é um comercial de margarina mas, no teste de elenco, descobrir que não se tem o perfil para esse tipo de amor.
Isso é realmente (doído e) bom!

cArne e pApel

Sou eu um somatório de passado presente futuro
Ódio, quando não, perdão
Sou eu minha vó, meu pai, meu sobrinho
Sou eu o Libano e suas pedras, o Nordeste e seu chão
Sou eu estrelas de luz ou apagadas, sol em desalinho
Sou eu planos de futuro, rastros do hoje e antepassados de genética
Sou eu começo meio e fim
Carne e papel em mim

Sou o melhor da turma!

Pulando amarelinha com a vida alheia! Quem nunca fez? Quem nunca destruiu algumas células, nunca deixou sequelas? Quantas bolinhas de gude na cabeça... Quantas porradas na testa. Amadurecimento?
Brincar com crianças no quintal do coração..."Se fode aí, tia"... é mais perigoso que estar numa rua deserta de filme de terror com um 'fiel' amigo que pretende te esfaquear a qualquer bocejo.
Crianças que não sabem brincar, mas descem pro play. Não sabem jogar, mas querem vivência sádica, querem porrada, precisam aprender, absorver e vão por aí, pulando amarelinha e fodendo o coleguinha.
Criança é um bicho cruel mesmo, te arranca as asinhas pois não pode voar, te amarra latas ao rabo sem nem saber quantas vidas ainda tem, te miram na cara e acertam no caração. "Yes! Sou o melhor!"

Amém!

Andava eu tão definida e certa pela estrada desse ano.
Mudanças repentinas doídas e de renovação.
Qual será o caminho, a nova jornada?
Como Alice no país das maravilhas, tinha uma pedra renal no meio do caminho...
Nada de forçar situações, nunca mais!
Eu e só. O mundo me abre seus braços e, enquanto fecho as portas, cresço e apareço.
Livre e presa por um trago de cigarro.
Livre e presa pela vontade dos Deuses.
Livre e presa pelo destino traçado. Qual será? Que decisões andei tomando antes de encarnar?
Que planos andei traçando antes de nascer? Era com você?
Quais de-FEITOS superar? Quais tarefas cumprir?
Maldita viagem abençoada, missões... secretas até pra mim.
Livre arbítrio de cu é rola! Quero nadar na linha e cumprir o não-FEITO.
A arte já estava? Ou é coisa nova?
Alma gêmea? Nenhuma a vista, nem tão pouco a prazo. Tô pagando pra ver.
Família? Tarefinha difícil essa!
Um NÃO à desistência.
Vamos em frente que atrás vem um bando de malucos desorientados e perdidos.
Amém!

...

Apesar desse comprimido, tipo rolo compressor, que me comprime a garGanta... apesar dele, consigo observar os diversos pés que caminham pelo mundo. Existem pés dos grandes, dos pequenos, com dedos enormes ou tortos, cores exóticas de unhas, unhas roxas topadas, amarelas coradas. Existem pés feios em belas pessoas e pessoas belas sem pés. Existem pés que caminham sem os donos, os que se arrastam, os que respiram e os que choram. Existem pés velhos calejados, pezinhos sem comentários, pé de criança, pé de mulher, pé de muleque.
No ônibus, apesar do comprimido entalado (bebe água que desce!), posso observar os diferentes pés. Uma diversão. Algo para se fazer com o tempo que me sobra não sei porque, o tempo que não se preenche por sí só, com leituras ou músicas, com beijos ou abraços, com cores das dores, das lágrimas. É o tempo de pés, de observar pés. Gosto deles. Teorizo.
Que garantia tenho de que as minhas alucinações são irreais e esquizofrênicas? Elas começam por baixo. Quando sobem, me deleito. Coisa de pirar as velhinhas que sentam nas janelas pelo vento que lhes falta, ar. Barulho do urbano, pé cansado de andar.

Visitas ao asilo ( parte I)

_ Oi meu pai ( não te resta mais um fio de cabelo preto a espera de embranquecer)

_ Minha filha! Achei que não viesse esse fim de semana!

_ Senti sua falta ( é só o que sinto desde que percebi que nunca tive importância para você. Isso foi aos cinco anos)

_ Sua visita é muito importante para mim (eu te amo)

_ É por isso que você não vem morar comigo? (Deixe-me dar-te o cuidado que você nunca me deu)

_ O brigada pelo cuidado, mas gosto daqui (lembro-me que te pedi que voltasse para casa logo depois da sua segunda separação. casamentos fracassados. todos. Você não quis)

_ Pai, tem um quarto pra você lá em casa. (eu te amo)

_ Não! (não quero ficar no seu controle nem ao menos servir de referência masculina a seus filhos sem pai)

_ Pai, lá você pode fazer o que quiser. Sem contar que os meninos ficariam tão felizes (velho orgulhoso!)

_ Não (não suporto a sua vida desregrada) Preciso entrar, já vão servir o almoço.

_ Lá você não teria hora pra almoçar

_ ... (Gosto de ter hora pra almoçar)

Em busca de

Quando o verbo SER não concorda com o sujeito, ainda sim vai concordar com o predicativo dele, sempe ligando o ente a sí mesmo. O verbo SER é a macaxeira da linguagem (e do resto principalmente)
Sem liga não se tem o bolinho de aipim, ou seja, antes do TER, verbo capitalista, verbo que compra, verbo que enriquece e rege a cultura ocidental, é preciso SER, vebo que alimenta, que define. Começa aí uma longa jornada a procura do ente eu.

absurdo.do

Emergência onde ferve a burguesia.
_ Sr. Mauro!
Droguinha na veia. Booommm. Bom e ruim
O professor de história, lindo porém calvo (defeito de calvície), bom de papo. Náuseas, corre ao banheiro.
Medo de agulha?
Se tem uma coisa que eu gosto é o defeito das pessoas
_ Sr. Mauro, por favor! Algum de vocês chama-se Mauro?
Dor (defeito meu)
A enfermeira de blush rosado, sapato de salto, cabelo esticado e boca cintilante repete com a seringa, agulha brilhantando na mão: _ Sr. Mauro!
E o professor historiador interrompe o papo sobre a triste história do atendimento médico:
_ Esse aí fugiu... Você é atriz? (defeito?)
Passa a louca com o carrinho barulhento recheado de instrumentos de tortura.
Absurdo. teatro do. Prato cheio pra Ionesco

Andei pensando que...


O bom mesmo é se apaixonar a cada estação do ano

A cada madrugada
A cada ponto de ônibus
A cada boteco diferente, a cada tacada
O bom mesmo é se apaixonar
É esse poder que a Rita tem
de ler um livro diferente
toda vez e sempre
E quando se vai, deixa saudade,
nenhum tostão porque nem tem, saudade.

litinha




Às vezes quando a gente ganha, a gente perde.... e quando perde... ganha



Acordei, além de livre, pensando naquela troca de suores, lágrimas e orgasmos. Essa vida é muito doida e linda. A vida é um filme e o final feliz é a gente quem faz. Foi eterno o pouco que durou e o que a gente pode dizer pelo olhar... é que valeu. Bj, querido.


(Na vida e no amor, não temos garantias, JABOR) Que bom! Tá aí a magia!




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Acordar sendo parte da natureza. Corpo de integração. Com o vento. Com o mar. Com o outro.
Era seu plano. Virar árvore seria bom... hum sentir vento de balançar. Mas o top top dos sonhos de mulher num corpo de menina era acordar pássaro....Ahhh sentir vento de voar.
A verdadeira evolução, tornar-se voador. Liberdade não pensada, não racionalizada.
Caminhou na praia logo cedinho. Vontade de rir a toa. Ser mar também seria bom, peixe... Felicidadezinha boa, coisa de se amar e só. Paz. Tentava se comunicar com os pássaros no vento, mas eles pareciam não dar atenção. Deviam ter medo. Medo de perder suas asas.
Na volta pra casa um ser da mesma espécie resolve dar-lhe seu oi. Um oi de vida, de novas possibidades. Quanta falta de comunicação, pensaram os pássaros.
Deitados na areia, olhos no céu, pouca coisa pra dizer, nada por falar. Sem contarem os mistérios de seu peito... sem contarem sobre o mar... tanta vida por viver, tantos passos a dar. Corpo de integração. Com o vento. Com os pássaros. Com o mar.

Eu, parasita

Menina linda hoje pensei em você com uma saudade amarga de pecevejo.
Juro que quando me plantei no coração seu, manipulando o amor por tanto tempo, também fui vítima. Vítima da carência.
(Só não sabia que colheria uma fruta podre na estação da colheita. É plantando que se colhe!)
Encontros marcados pro futuro, cineminha no meio da aula, músicas, flores e chandon, olhares de amor mentiroso, poesia em folha de caderno, telefonemas desesperados, cafezinho e cigarro... como era doce a sua companhia... seu amor me alimentava, e eu sugava teu seio até que o leite secasse para minar mais uma vez. Quanta dor te causava. Mordia e assoprava. Eu, parasita de ti, sempre me esquecia de te contar a verdade sobre mim: eu não te amei. Demostrei, mas não amei.
Seus olhos, tão lindos, pediam a ilusão... e eu te dava. Teu corpo inteiro pedia, sua esperança quase imortal pedia cada uma daquelas ilusões... e eu te dava. Eu, serpente, te entregava a maçã... Você podia não comer, mas você devorava. Toda a minha sinceridade mergulhava água abaixo... Todo meu corpo mergulhava na mentira.
Aquele dia na padaria eu já não tinha mais controle da situação. Lembro que você pagou o meu bolo de chocolate. A mulher do caixa viu sua lágrima pelo vidro. Era amargo, o chocolate.
Às vezes eu achava que te amava. Quando você se interessava por alguém, eu era tomada pelo medo do escuro, um pavor. Você sabia. Tão linda você ficava quando era amada... Uma princesa encantada nascida para dar amor! Eu afastava cada coraçãozinho que se aproximava de você. Eu fazia isso só com o olhar. Como eu fui vil! O monstro do armário era eu.
Às vezes, só às vezes, eu achava que te amava. Mas o que eu amava mesmo era o meu poder de manipulação. Era um gozo cada vez que você falava do seu amor por mim, um amor abandonado, atropelado pela minha vaidade. Nossa, quanto prazer me dava!
Alguns amigos se afastaram, eu não entendia porque eles me julgavam se minha companhia te fazia tão bem. Se eu era 'tudo de melhor para você'. Era o que você me dizia enquanto me amamentava.
Adiei a sua felicidade e perdi sua amizade. Seu amor de chocolate ao leite virou ódio tipo amargo .
Já não lembro a data do nosso encontro no futuro, a hora... Só sei que era Paris!
Quando eu for, espero não te encontrar. Que sejas feliz!

Camille Vendaval Vai ao Mercado, Na Niqueleira Vários Coraçõeszinhos De Papel Camurça



(coloca a mão dele em seu coração) Ta sentindo? Com você eu me sinto como uma onda imensa que vai te afogar... O que sinto por você não vem em conta gotas não. É enchente. Vendaval. Furacão e o escarcéu. É essa coisa doida que sai devastando a gente... Essa coisa que desorienta, desnorteia... Você é febre... Você é um gosto que não sai da boca... É câncer, câncer bom, que toma o corpo todo, que não tem cura... Um câncer lindo...Você é lindo... Com seus olhinhos... Com seu sorriso... Lindo quando reclama, lindo quando fica sem saber o que dizer, lindo quando bagunça o cabelo, lindo enquanto fala, lindo...lindo... Você roubou a minha alma...
(silencio entre os dois.)
(beijam-se calorosamente
)




Texto: Fragmento de CACHORRO! de Jô Bilac (um pervertido textual)


Imagem: Escultura de Camille Claudel (um mártir do amor. Camil, louca de pedra, louca de entrega)


Colagem: Lita Sahun (sim, foi bem nesse espírito de exagero sacudido que eu acordei hoje. Logo cedo fui ao mercado com minha calça vermelha de paetês dourados, descalça nos pés e no tronco. No pescoço, cachecol, porque ainda faz um pouco de frio n'alma. Reparei que as pessoas me olharam por dentro e se assustaram. Eu ri. hahahahaha. Adoro a vida, o amor e a dor)

Expulsos do Édem

A serpente é vaidosa, e por isso, vil.
Mas a culpa não foi da serpente nem da vaidade dela.
Eva é a incerteza em pessoa, e por isso, caiu

A serpente é vaidosa, e por isso, vil.
E agora? Banca?
Não. Já tem o que conseguiu

A Serpente é vaidosa, e por isso, vil.
Mas a culpa não foi da serpente nem da vaidade dela.
Pelo sabor da maçã, eva caiu

Tá frio

Acabo de chegar em Paris. Friiiio!
Piiiinto paredes, cooompro caranguejos...
Vovó resolveu voaaar.
Treco que pulsa!
Bola redonda de intensa explosão.
Va-por!
Telefone no meio da sessão (ou secção)
O pé tá frio, mas o telefone não pára.
Logo logo a coisa inverte
"Ela é necrófila"
O melhor da noite
Não, não era isso que eu queria dizer
vento de total existência
Acabo de chegar! Friiioo!
Nossa, quanto frio! Coisa que não basta é cachecol.
Friozinho de rinite. Se paro de puxar o ar, não dói mais e ainda ganho, inteiramente grátis, a morte. Que sorte!
Vai pra calçada! Por que você só anda no meio da rua?
hahahaha pra ter a sorte de ser atropelada hahahaha
Mas que frio! Que sorte a minha!
Ah se esse cachecol desse conta... Não vai dar.
Se fecha! Abra-se.
Mas, menina, ninguém precisa saber.
Então eu topo, (Já tinha topado antes.)
Quero ficar 3 dias sem falar...
Assim que eu encontrar... Mas tem de ser um que me cale. Vai calar!

Obrigada!

Ela _ Acordaste cedo
Ele _ Fui colher rosas
Ela _Vermelhas?
Ele _ Prefiro as cor-de-rosa, de vermelho dissolvido. Sabe?
Ela _ (É Ilusão) Sei. Que estranho, da nossa janela já não vejo a lua!
Ele _ (É Amor) São mais doces e mais perfumadas.
Ela _ (Amor de verdade é o cotidiano). Ahh Vamos à lua hoje? Lá paga-se meia.
Ele _ (Lua?) Hoje volto ao jardim, eu e Thoreau, para viver profundamente, desculpe.
Ela _ (Eu também iria) Claro. Vá! Abra-se! Outro dia, quem sabe.
Ele _ Quem sabe... Ouvi dizer: O futuro é lindo e certo
Ela_ (Descruzemos nossas linhas, então?) Lindo!
Ele _ (Façamos delas paralelas) Eu?
Ele _ (você, por que não?) O futuro
Ele _(Porque ninguém tinha pensado isso de mim antes) Ah! Claro... Então já vou. Colher. Não precisa me acompanhar até a porta.
Ela _ (e a lua, meu sol?) Adeus, querido
Ele _(adeus?) Você vai à lua?
Ela _ (Que lua? Não consigo ver nada) Sim.
Ele _ (Eu não te amo daquele jeito que você...) Então boa viagem!
Ela _ (Obrigada) Obrigada!

Camille

É tanta que te rasga o peito e os peitos e dói
Febre
Pulsação
Mãos
Arrasta-se e dor
Cravam-se unhas e pés
O que tenho é meu, não vem de ti
Arranca-se de mim
Véu de branca violência

"Durmo nua todas as noites na ilusão de que está a meu lado, mas quando acordo já não é mais a mesma coisa" Camille Claudel

Amor

A pergunta do poeta:
Que que eu faço com esse amor que me toma?
Que me adormece o corpo todo, me aguça os sentidos, me enche e me esvazia...
Que me açucara e mela...
Que me encurta, me a-cha-ta
Que me faz feiosa, careta e chorosa
Que que eu faço com esse amor que me arranca de mim e não traz de volta?
Que que faço com ele que não me deixa NADA ver?
E o doutor respondeu:
Mas isso não é amor!!!
Amor é o que você tem pela arte. Brando e eterno
Febre alta é o nome disso.
Abra bem os olhos que ela já já passa.
Voe alto que ela já já passa
Corra ao vento que ela passa
ah passa!
E a resposta do ator:
Usa no teatro esse amor, que ele pede.
Usa na poesia, nas artes plásticas que elas querem
Usa na arte esse ardor, essa dor. E sorria
Aí uma mãe respondeu:
Tenha um filho!
Resposta de padre
Joga fora esse amor!
Uma velha cética:
Ih... mas que exagero!
E a resposta do amor:
Sacuda Enlouqueça Arda Chupe
Sugue Fume Ligue Procure Derrube
Chore Cante Dance Engula Insista Acarinhe
Trepe Grite Vomite Arranhe Voe Bata Fantasie
Morda Corra Morra Transcenda Declare Idealize
Minta Desminta Transfigure Sofra Suje Limpe
Assopre Abafe Esquente Transfira Lambuze Acredite Duvide
Acenda Fortaleça Ampare Rasgue Ilumine Queime
Arraste Apague Aperte Mate Troque Penetre
Lamba Esconda Apareça Ensurdeça
Rasgue Intensifique Aprofunde
VIVA-me, eu que sou a sua essência
aqui lá ou em qualquer lugar
hoje sempre eternamente e já

PRISLITA

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Um anjo, num sonho, me disse 'não se preocupe em escrever coisas belas, escreva suas putrefações e elas te renovarão'. E com essas palavras, me justifico.
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